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: Perdi-me, perdi-te, estou perdida e no entanto ainda posso andar. Ando cheia de náuseas doces e não sei mais como sair à rua, nem bebo água, nem faço coisas tão simples e mortais. Por que todo dia volto a ficar superhumana. Cada vez que ouço a voz familiar das secretárias antigas, que ainda sorriem quando atendem o telefone. Cada vez que desejo, com uma intensidade indecente, que também as minhas paredes sejam brancas, usadas, com insetos nos cantos. As minhas paredes são de cor, de um azul torcido e quase tonto, que combina com os cabelos vermelhos que eu arranjei: sento barroca e sem roupa a ler livros no chão do quarto, e não ouço ópera não. Estou pequena, como as pessoas ficam depois das grandes perseguições. Por que o deserto, esse é mais calmo. Voltei de lá faz pouco tempo. Não te disse nada que ia, para não te preocupar, você é meio tola, tem medo de água e areia. Pois então. Eu fui. As dunas eram bonitas mas me lembravam peitos sem pontas, e doía de ver, o sol ardia, os pés arranhavam no chão. Todas as coisas que acontecem no deserto. Mas me deu calma, foice dentro do nariz, me deu calma, eu não gosto mais de me fartar. E havia cactos: me lembrei de quando criar cactos era tão fácil, as únicas plantas que você deixava crescer, por que eram bonitas, cheias de pontas e não precisavam de muitas atenções diligentes, alimentações e afagos. No deserto os cactos não são unhas encravadas no meio da sala, como os seus de anos antes, são digníssimos, altos e perfeitos. Lá eu não encontrei um oásis. Bebi areia mesmo, que era um jeito de por o deserto em mim e virar cacto alto e apaziguar. Um prazer de mãos por entre as pernas, e depois não puderam me dar água, eu não queria e os outros tinham medo de que toda a areia que eu tinha bebido virasse lama por dentro e depois secasse sob o sol e eu virasse mais uma estátua de carne dura. Foi então que eu fiquei mais superhumana, aquilo que eu disse que volta às vezes, com as vozes das mulheres velhas. Mas passou, a calma do deserto. Então eu voltei, por que não queria mais, e uma gente parecida com aquela que tinha medo de me dar água me disse que eu estava doente, que tinha ficado muito tempo sentada na mesma cadeira, no meio do quintal, e que tinham me descoberto lá às três da tarde, com o gato no colo. Eu expliquei que não, que eu tinha ido viajar, por que eu precisava mesmo da distância, estar longe dos seus cactos, ter os meus próprios, e que havia chegado de tarde mesmo, mas às duas horas, não deu tempo de fazer almoço. Então eles vieram. E, claro, não entenderam direito o que eu dizia, é difícil encontrar ouvidos atentos. De qualquer maneira, te mando fotografias, lascas da viagem, tão bonitas. E ontem tive um sonho, já sei para onde vou nas próximas férias: eu estava numa casa com paredes de gelo e uma criança no colo, e um casaco de pele, e um homem que carregava um serrote. O que quer dizer que vou ter um filho. E vai ser gelado, no Ártico não existem cactos, e nós não nos veremos nunca mais. Com muito amor, . (1997) |