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Hoje deu vontade. E eu tenho notado que eu preciso olhar em volta. Os óculos novos são uma moldura muito pequena para as coisas que eu queria ver do mundo. Queria não, quero, continuo querendo, vou exercitando as costas às vezes doloridas, as mãos no crochê, a cabeça na física quântica que promete ser uma espécie de nova religião para mim. E mesmo assim eu continuava precisando de um corte de cabelo, tirar as sobrancelhas, comer batatas cozidas, essas coisas prosaicas. E não ter tanto medo da morte para poder não ter tanto medo da vida. O gozado é que quando a gente entra em descobertas continua feito de carne, continua com a barriga roncando, não é filósofo puro nem açougueiro simples. E eu, do lado de cá, tenho medo mesmo é da sustância, da sobrevivência e da independência que eu sei que posso ter e que vem chegando, eu sinto que vem chegando. E então a moça me disse: experimenta o que você sempre teve medo de experimentar por que o tempo de ser boa menina já passou. Achei bonito e difícil de por em prática o que ela disse. Por que eu sorrio demais para os estranhos na rua e aguento desaforo de quem não precisa. Não adianta eu dar por encerrado. Tem que se encerrar por si. Começando. Sempre começando exatamente como o mito hindu da criação do mundo. Eu sou num tempo circular. E olha lá Shiva balançando as perninhas e pondo a roda em movimento de novo. |