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Eu queria escrever qualquer coisa engraçada Nasci sem senso de humor. Eu só sei escrever os ecos das coisas que eu vejo E da janela do carro eu vejo: uma mulher com uma santa no colo, Duas crianças lambendo o vidro com gosto, homens se beijando, Os outros carros enfurecidos buzinando atrás. Os homens se beijando me fazem feliz. Os carros buzinando não. O sol tênue, a garagem, o botão do elevador. Emergência. É isso que eu sei da vida: é uma emergência. Pensando, pensando, sentada. As gentes me dão náusea. Os bebês-lontra me encantam na tevê.E então surge um caçador. É dai que eu sei que tem que ter um jeito de eu levantar, parar de ficar aqui reclamando do destino e da crueldade da espécie e viver. Eu não sou um bebê-lontra. Tô com saudades do sertão. E de Belém do Pará e de outros lugares que eu não conheço. É bom emergir. Apesar da presença eterna dos domingos à noite. Neles você percebe que passou tempo demais dormindo essa semana, percebe que teve medo da vida e que deveria morar em Santa Cecícilia, onde os aluguéis são honestos e as janelas enormes, ao invés de morar no pequeno apartamento de agradar parentes onde você vive. É também no domingo à noite que você percebe que bom mesmo é a falta de laços e a possibilidade de ir pra Botucatu, Rondônia ou Feira de Santana com dois dias de sobreaviso, e é quando você se ressente da impossibilidade de tanta falta, por que quer é ter alguém do lado a compartilhar a vida. E tem, e isso gera uma certa responsabilidade. É no domingo à noite que você enterra fantasmas vivos, que já deveriam ter sido postos para dormir há tanto tempo, e é no domingo à noite que você assiste meio sem paciência a alguma mesa redonda de futebol, onde se discute o indiscutível, e decide, mais uma vez, continuar a brigar por um pouco de espaço no meio da cidade. |