E mais um, bem velhinho

Minha carne muito tenra

Eu tive um bebê. Ele era muito parecido com você. E ele morreu.
Não tem dor que não passe.

Ele morreu e foi como uma volta, tão vermelho, tão bonito, pingando sangue pelo chão. Coágulos grossos, quase púrpura por cima dos papéis. Minha mãe telefonou e disse, calma minha filha, era só mais um plano, um mapa de estradas despedaçado. Você traça outro.
E de repente eu não sei mais desenhar nem escrever e me gabo toda, agora não dói mais. Agora a polpa é dura e niguém morde a minha boca por dentro. Ninguém mais é anjo, ninguém mais sabe fabricar oceanos.

Eu decidi, mamãe: não digo nada. nem que me torturem, eu não digo.

Para quem tem paciência de ler contos

Ò Milosci

Os poloneses são tristes. Tio Krystof, por exemplo. Veio para cá, fugido da guerra, dos horrores da guerra e veio passar seus próprios horrores.
Ele contava que no Natal, na Polônia, seus pais traziam um pinheirinho para dentro de casa e a mãe colocava maçãs de inverno para enfeitá-lo, no lugar das bolas de vidro do paraíso tropical para onde fugiram. Maçãs e velas. As maçãs, tão vermelhas e luzidias, ele só podia comer no dia do Natal.
Ele gostava de roubá-las antes, escondê-las e mordê-las às vezes. A cada mordida a carne da fruta pretejava, mas depois da mordida nova aparecia outra carne branca e suculenta. Até que a mãe descobria o talo da fruta embaixo da cama e os irmãos todos tomavam uma bronca terrível, que na língua deles era muito mais dura do que em qualquer outra língua com menos xizes e dabliús e zês.
A família inteira fugiu da guerra. Viraram comerciantes de qualquer coisa, como todos os imigrantes. E um dia, no calor da terra estranha onde se instalaram, seu pai se enforcou no chuveiro. A vida inteira Tio Krystof rezou e contou em polonês. Também cantava uma música de criança sobre uma linda menina de tranças loiras, perdida para sempre nas ruas de Cracóvia.
Depois que o pai morreu, tio Krystof cresceu, comprou uma Rural Willis e aprendeu a ser técnico de televisão. Ia pelos descaminhos do interior a consertar válvulas quebradas, antenas e gabinetes. Tinha um topete enorme e olhos azuis de derreter mocinhas. Um dia entrou numa casa para consertar uma tevê e encontrou uma garota bonita, muito nova, com uns olhos que passeavam pela sala sem parar em ponto algum. Ela nunca foi capaz de abraçar direito outro ser vivente. Tio Krystof se encantou. E casou com ela.
Tio Krystof era como um pinhão, duro, seco, generoso, nutritivo. Um jesus cristo para as mulheres daquela casa em que entrou para fazer consertos. As mulheres, sua própria e a mãe dela, eram de pouca trégua. Ele não conseguiu consertar nada além do aparelho de TV. Tiveram filhos, os filhos cresceram, e Dona Lana, sua sogra, estava lá, a cuidar das crianças e a infernizar sua vida como só uma mulher apenas parideira poderia .
Nos Natais da terra nova, Tio Krystof lembrava de Cracóvia. Sentia uma saudade imensa e não havia ninguém que o escutasse. Foi ficando velho, cantava, se recusava. Abria aquelas garrafas do licorzinho da verdade, um licorzinho de cereja ardido que eu experimentei, com uma careta, quando tinha dez anos de idade.
No quarto cálice de licor, tio Krystof costumava ver Deus. E falar com ele em termos pouco educados. Amaldiçoava o dia em que tinha entrado pela porta da casa de sua mulher, xingava o país bárbaro onde morava, destilava ódio apavorado para com as vontades de Dona Lana, que sentada na ponta da mesa o olhava com um muxoxo de desgosto e dizia para quem quisesse ouvir que aquele homem era o maior castigo que ela podia ter recebido na extensão de todos os seus dias. Aquele homem havia roubado sua filha. Havia feito filhos nela. Havia tornado viva uma pessoa que não podia, eu tenho nojo, gritava Dona Lana.
Odiavam-se com aquela crueldade enjoada que fica por baixo de todos os dias de quem divide uma casa sem amor. Dona Lana servia almoços e jantares para ele, há quem diga que cuspia na comida, mas eu sei que ela nunca fez isso. Gostava mais de infligir culpa do que de fazer má criação. Era uma mulher de maldade sutil.
Tio Krystof não era sutil. Trabalhava muito, era pão duro, e vivia de parecer mais novo do que era. Uma vez comprou uma moto e colocou a família em pé de guerra. Se vestia de couro preto e saía andando pelas estradas em volta da cidade. Na casa dele tinha uma fotografia enquadrada, lugar de honra, e ele lá, majestoso, sentado na moto que depois vendeu, cedendo aos apelos da mulher. Naquela família as crianças não podiam correr. Andar de moto então, era impensável.
Tio Krystof, pensando bem, era mesmo uma criança. Tinha uma foto de sua mãe morta na cabeceira da cama, tinha uma sogra trabalhadeira e cruel, e uma mulher que não dizia nada.
A mulher de tio Krystof se contentava em olhar de longe as brigas da família. E gostava de branco. Se vestia de branco sempre que achava uma desculpa. Por que naquela casa nada, nada mesmo podia ser aleatório. Havia razões para tudo. Os dias mais felizes na vida de minha tia: a formatura no Normal, o dia do casamento e as tardes em que me levava, criança ainda, na igreja ao lado de para ver as noivas de sábado. Num desses dias, havia um noivo branco de pé quebrado que me lembrou de tio Krystof.
Minha tia brincava de casinha. Tio Krystof sofria mas não era bonzinho. Dona Lana olhava e regia a sinfonia com a mão de ferro de quem, sentada numa cadeira à beira da praia, controlava os netos dentro do mar.
Nenhum deles escapava, nenhum deles ia ao fundo.
Um dia Dona Lana adoeceu, e não sem antes colocar a culpa em Tio Krystof – alucinada de morfina ela dizia esse homem caiu em cima de mim e me esmagou - morreu.
Foi a primeira vez que eu vi um cadáver, foi a primeira vez que eu vi um brilho torto nos olhos do Tio. A Tia chorava, mas o Tio intuiu qualquer coisa como um fiozinho fino de liberdade. Uma possibilidade.
Enterramos Dona Lana. E havia flores e parentes e um cemitério enorme e ensolarado que me deu vontade de fazer pique-nique.
Mas era tarde. É sempre tarde para os poloneses, é sempre tarde para gente que nunca disse na vida o que precisava ser dito.
O tio e a tia voltaram para casa. Para sempre separados. A mulher que regia a sinfonia não estava mais lá. Eu quis tanto que eles fossem felizes, eu era criança e não sabia que mesmo naquele inferno havia um equilíbrio de vontades.
Alguns anos se passaram. Os Natais continuaram os mesmos, com a única diferença de que agora era a tia quem preparava as comidas, enchia os copos e distribuía os presentes, numa imitação exata do que sua mãe tinha sido. Tio Krystof foi enlouquecendo mais e mais, de uma loucura dócil que fazia pena. Jogava sozinho jogos de guerra, ainda bebia o licor da verdade, e falava muito nas ocasiões festivas insuportáveis para o resto da família. Ele não gritava mais o ódio ríspido do dia em que sua vida tomou o rumo que tomou. Ele falava de amor. E ninguém ouvia, sua filha agora era quem fazia muxoxo a dizer para todos os presentes, este homem é louco. Todos os anos, o mesmo discurso e a mesma surdez há tanto tempo conquistada. Eu, crescida, também fiz parte do coro que não ouvia, eu também quis escapar, ano após ano, daquela ladainha de Natal que me fazia chorar por que eu sabia, não havia solução, era mesmo aquela história .

Então, semana passada, Tio Krystof morreu.
Os poloneses, tão tristes... Fui ao velório, desempenhar o papel de sobrinha, dei pêsames para a Tia que continua a mesma mocinha que não conseguia abraçar ninguém. E estava indo embora depois das fomalidades quando me ocorreu, com um desconforto sem par, que não podia. Não podia ser assim. Seco, duro. Não podia. Havia de ser também nutritivo. Eu lembrava daquele homem que cantava numa língua estranha para mim, meu primeiro estrangeiro, eu gostava do sotaque impossível dele mesmo depois de cinquenta anos falando outra língua. Eu, de alguma forma difícil, sentia afeto.
De dentro da minha incapacidade de adulto, eu não sabia como dizer. Igual a todos eles que passaram pela vida entupidos de palavras. Doía, mais por mim do que por ele.
Havia uma banca de frutas ao lado do cemitério. Fui até lá. Comprei duas maçãs, vermelhas e luzidias. Esfreguei as frutas no casaco até que ficassem fulgurantes, entrei na câmara ardente, coloquei uma em cima do caixão horrendo de meu tio. Acendi uma vela. Fui comer a minha fruta num canto escondido, a carne branca pretejando rápido. Então eu disse: vai com deus, para Cracovia, vai em paz.
E fui embora.

No meio da rua, uma tarde de sol muito parecida com a tarde do enterro de Dona Lana. Houve algum amor, eu acho. No final, houve. Mas foi tão tênue que eu me perguntava qual a valia de uma vida assim, meu Deus, qual a valia?