|
É por isso que eu vou ser cineasta. Se bem que do jeito que a coisa vai, vou virar monja mesmo. Lá no alto das queridas montanhazinhas do Himalaia. Agradeço a Deus minha total inabilidade com artefatos bélicos, pólvora, granadas e quiçás. Senão a esta hora hoje haveria gente com a cara desfigurada, miolos espalhados no tapete, uma cena bem lúdica e poética. Peço a Deus que minhas palavras possam ser pequenas armas químicas capazes de corroer o saco e o cérebro inútil dessa gente, dia após dia. Pena que eu não acredito em Deus. Bem, vamos deixar isso de lado por hora, senhor. Nhá. Nhá. E nhá. Ganhei flores sem pedir. De surpresa. Foi bonito, assim espontâneo. Ganhar presente sem pedir, sem dar nenhuma indireta, é muito bom. Fazendo filminho até as duas da manhã ontem, acabei despedaçada. Dormi três horas, trabalhei mais, e ia tirar uma soneca rápida quando virei Bela Adormecida e acordei horas depois com a certeza de que férias serão bem vindas e são itens de primeira necessidade. É um exercício diário não morder pessoas tacanhas. Por que coisa que eu não tolero é gente que se recusa, tendo tido todas as oportunidades concretas de crescer. Gente que faz truque para parecer bonito aos olhos dos outros, gente que faz birra, gente muito apaixonada por si mesma. Não tolero. E meu deus bom jesusinho, tenho que tolerar. Por que senão é ganhar na loto e comprar um lote no himalaia, bem frio e bem distante de qualquer voz humana. Tá certo que todos nós temos nossos momentos de tacanhisse, eu também sou tacanha às vezes. Mas quando isso acontece eu pelo menos posso me morder. E mordo, ah se mordo. Então era assim: eu queria ter uma casa maior, eu queria ficar tranqüila e sossegada e não ter que me preocupar com o meu sustento, eu queria alguém que cuidasse de mim e me salvasse. Enquanto eu queria todas essas coisas eu também não queria. Por que eu queria estradas e caminhos e viagens e surpresas bem distantes de qualquer tranquilidade. Eu queria descobrir, deslindar, desvelar. E um dia eu desesperei porque eu já não sabia mais o que eu queria. Se era o travesseiro ou a estrada, se o avião ou o armário, se eu, se outra. Muito tempo passou, e eu percebi que dentro de cada casa há um hotel, ao longo de cada estrada uma fileira de caras conhecidas. Tranquilidade no torvelinho, aflição na calmaria. Tem sido doce. E agora eu tenho direito inclusive ao meu mau-humor e às minhas piadas rascantes como nunca tive antes. |