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Voltei a ler a Clarice Lispector e ultimamente tenho entendido essa frase aí em cima como nunca antes. Meu corpo ocupa o espaço em volta, eu cresci, eu faço coisas, eu não sou mais uma menina. Eu sempre falava essas coisas sem sentí-las. Agora eu sinto. Não me impede de usar a amada saia plissada e o sapato de boneca, mas eu sinto. E tem chegado a hora de dizer adeus para algumas coisas. Uma delas durou sete anos e me ajudou a Ser muito mais do que eu era. Tô com medo mas preciso sair andando, história da minha vida. Em sete anos eu não me tornei menos louca, eu aprendi que há vários caminhos. E agora, se eu escolho o caminho da minha loucura eu intuo por que e vejo possibilidades. Um mundo aberto. Depois ele se fecha de novo, e se abre de novo e se fecha. Mas agora está aberto. Eu não a vejo há mais de dois anos. Mas a gente se manad e-mails ocasionais. Eu queria que fossem cartas de papel se não tivesse todo o trabalho ultimamente impossível de ir ao correio e escrever à mão. Papel dura mais pra posteridade e tem coisas das quais eu gosto muito de me lembrar. Hoje eu dizia assim: " Lara: Por aqui está tudo uma loucura, literalmente: estou fazendo estágio num hospital psiquiátrico (é muito legal, é um hospital psiquiátrico decente), aprendendo a lidar com a impáfia dos médicos e descobrindo o que é me tornar psicóloga depois de cinco anos de informação e pouca formação efetiva. Como essas profissões de saúde mexem com o âmago da gente! E quão pouco a gente aprende isso na faculdade. É como se ao nos ensinar a técnica nossos professores acreditassem que é aí que mora a história. Sem um trabalho pessoal eu vi que estava ficando impossível, não existe aquela história de "não levar trabalho pra casa". Você é também a sua profissão. E ser dá trabalho. Mas eu estou feliz. E me achando e fazendo um projeto de mestrado que acho que vai ficar bonito. Tô namorando e querendo casar, tô feliz com meu cantinho e meus gatos, fiz um filme e agora estou fazendo outro. A vida anda intensa e eu às vezes queria que o dia tivesse mais horas pra tudo o que eu quero escrever e dizer e pensar. Além das coisas produtivas a gente ainda tem que cuidar da casa, fazer supermercado, ir no banco, essas coisas chatésimas. E muitas coisas legais também, como ir ao cinema, fazer jardinagem, pintar parede, ver os amigos, ficam espremidinhas entre uma hora e outra. Às vezes eu me sinto em falta, mas eu também sei que os amigos de verdade a gente encontra e é como se a gente tivesse visto eles ontem. O tempo é pouco, a sensação é mesmo de que a vida é muito curta. Aí eu tenho que me conformar, não ser tão ansiosa e fazer Yoga e meditação pra não ficar puta no trânsito e não atirar pela janela o computador que às vezes quebra. Tenho vontade de horta e casa no campo, mas por enquanto meu lugar é mesmo aqui. Quem sabe em alguns anos eu junte dinheiro pra ter um quintal com grama. Hoje é a luta de tentar ser o que eu quero ser. Nada está dado. Quando a gente trabalhava com pedagogia construtivista eu não imaginava que tudo na vida só se aprendia de verdade assim: na prática e no coração. Tenho crescido tanto. Crescer dói, mas também é lindo. Estas são as minhas novidades. O resto do povo anda sumido. Tenho visto o Fábio (anda quase Zen, veja só, fazendo terapia e Yoga também), e o Luís (temos trabalhado e falado pornografias juntos), e outro dia encontrei num churrasco encontrei a Lu. Tá prestando concurso público na CDHU, trabalhando com as crianças de rua e as coisas difíceis com as quais ela gosta de trabalhar. O resto do povo não sei onde está. Tô achando que o que vai rolar em Cardoso vai ser o aniversário de dez anos do Unisol, viu? Eta povo difícil. Mas sacomé, gente chiquenoúrtimo é assim mesmo. Um beijo, querida, e espero te encontrar logo (ou pelo menos nessa existência e não na próxima encarnação" |