Como se aprendem as coisas
Primeira visita ao hospital psiquiátrico em que eu vou fazer estágio. Aprendi mais em cinco horas do que em cinco anos, um aprendizado que passava pouco pela racionalidade e muito por uma coisa que eu me acostumei a chamar de “meu estômago” mas que é aquele lugar impreciso onde de repente se aloja um saber , um lugar que é um tempo, o lugar do indizível.
Participei de um grupo terapêutico no hospital. Espiei embaixo da cama e não havia dragão. Havia eu, havia o medo de enlouquecer que eu até então tive, havia o outro, havia a solidão e o desamparo comum a todas as pessoas do grupo, havia maneiras de lidar com o que faltava, mais ou menos malogradas, havia os gestos de cuidado partindo de todos, mesmo das pessoas que a um primeiro olhar, a uma primeira escuta, não seria capazes de cuidar de alguém. Uma moça com um discurso aparentemente confuso (digo isso porque percebi o quanto subsiste uma lógica interna em todos os discursos) levantou a mão para “mandar energias de cristais” para a outra que contava do sofrimento de ser dependente química. Aquele gesto me tocou muito, pela disponibilidade, apesar de tudo. E eu me vi antes, estudante, tão assustada, tão indisponível, tão entrincherada nas minhas ciências de ajudar o outro. Eu nunca pude, por que não havia me deixado ir, com medo de não voltar. Por isso eu me agarrava aos livros.
Os livros são só amigos, bichos de pelúcia, maneiras de retornar à terra e descansar os braços e depois se atirar a nadar de novo. A gente escreve para lidar com essa transbordância de SENTIDO que acontece depois de um aprendizado desses. E depois percebe que não vai conseguir dizer tudo, e o livro acaba. E então lemos os outros, companheiros de viagem, Heidegger, Lacan, Freud, Machado de Assis, Proust, Clarice Lispector, todos eles. E depois deixamos de lado. E nos atiramos e vivemos e então escrevemos outro livro e assim a coisa se repete. Até o Fim.


Cometão e melancolia
Voltei. Depois de quatro dias no chão da Karen, depois de uma lauta feijoada com Lilli e André e shows de bandas boas e horríveis, depois de fazer compras na Quinze e decidir que caminho tomar, sem mapas e sem ninguém para seguir. Passei uma manhã inteira andando a esmo na cidade desconhecida, comprando meias e vendo o sábado passar na cara das pessoas que entravam e saiam das lojas, os sorrisos dos turistas fotográficos, a rua parecida com Barcelona mas também com Santa Rita do Passa-Quatro.
No meio da ópera, no meio das árvores, no meio do lago, eu vi a Kim Deal, ídolo da adolescência mais tenra, eu imitava a voz dela no chuveiro fazendo caretas de moça fofa. E ela estava gorda, equilibrando a guitarra nos peitos enormes, lembrava o B.B.King. As músicas estavam lá. Eu estava lá. Ela estava lá. Então eu deveria ter ficado alegre. Mas a cara dela me deu uma dor bem no meio da barriga. Ela não parecia ter sido feliz nos últimos anos. Nem uma Pixie foi feliz para sempre. Mas continuava cantando, apesar de tudo. E eu pulava e cantava junto, em homenagem. E com a impressão de que eu estava dando um adeus irremediável para algum pedaço de tempo dentro.
Dia seguinte bateu saudades das coisas que me importam mais que a música, saí correndo e agarrei o Cometão, as seis horas de estrada mais longas da minha vida, pra voltar pra quem me esperava com jantar na mesa e uma paçoca Amor na mão.