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Dormir, ler até os olhos saltarem das órbitas, ir ao cinema e tomar banho de banheira com luxo, espuma e muitos sais. Alguma vantagem eu tinha que ter por ser a babá de um poodle durante quatro dias. É desesperador ficar no meio de um fogo cruzado entre dois escorpianos. E sim, eu acredito em horóscopos, desde que andei tendo provas científicas de que funciona. Às vezes me dá uma fragilidade, uma sensação de ser de vidro, eu vou quebrar, eu vou quebrar, falem baixo, não digam coisas rascantes nem falem mal de mim. Nessas horas eu fico meio paranóica e acho que se alguém falar de mim, vai ser mal. E que eu sou chata e delicadinha demais e devia engrossar a voz e me fazer de rogada e botar banca e ser absolutamente desinibida. Quem me conhece às vezes não acredita o tamanho da vergonha que eu tenho do mundo. Tem dias em que eu ainda tenho medo do monstro que mora dentro do armário. De qualquer forma eu jamais durmo com o guarda-roupa aberto. No creo en las brujas, pero... Tô morrendo de vontade de fazer um curso sério de massagem. Eu tenho usado os amigos e namorados como cobaias há anos... É uma das coisas mais difíceis da vida o exercício da tolerância. Por que tolerar implica em de algum jeito contribuir com toda essa atividade que há em volta da gente, aulas, seminários, exibições, teorias, debates, lugares em que as pessoas falam mas em que ninguém ouve ninguém. É como se nós estivéssemos andando numa bicicleta ergométrica sem parar. Movimento sem sentido. Eu estava aqui ouvindo Wandula. Preciso de um disco deles. É uma coisa tão bonita. Alguém sabe onde eu posso comprar? E Woyzeck também. Eu adoro o Caubi Peixoto Loiro. Eu vou, eu vou, eu vou. Karenilda me ofereceu um lugarzinho no chão de sua casca e ciceronear-me-a pela cidade dos pinhões no feriado do dia do trabalho. Agora alguém me conta quem é o cara babando no sofá que tem no anúncio do Curitiba Pop Festival que saiu na contracapa da Bravo? Sábado, sete da noite. Muro do cemitério da Dr. Arnaldo. De dentro do carro, avistei um grupinho de góticos. Uns cinco ou seis. Talvez eles tivéssem feito piquenique no cemitério e estivéssem voltando para casa. Então outro grupinho, andando na direção contrária. Será que eles fazem footing lá todo sábado e eu nunca tinha notado? O farol abriu, o carro andou, e quando eu olhei para o lado, havia uns TREZENTOS deles, espremidos no ponto de ônibus, conversando animados (?!?), tomando coca cola, capas pretas ao vento. Paramos o carro na faixa de ônibus para perguntar o que estava acontecendo. Um gótico SIMPÁTICO e SORRIDENTE (?!?) nos revelou o mistério: eles estavam esperando o ônibus que os levaria para uma RAVE GÓTICA no PICO DO JARAGUÁ ! Fiquei imaginando as pequenas mortícias de vestidos longos e botas de salto enfiando o pé na lama para encontrar os espíritos da floresta, e os moços de capa dançando com as árvores. Jogos de RPG muito intensos até o sol raiar, Sisters of Mercy, chopp com groselha... E eu achando que já tinha visto de tudo na vida. Isso é ALTERNATIVO, cara. Era noite de sexta feira, os meus ossos trucidados, a louça na pia virava a esquina de casa, e eu não queria fazer nada no dia em que meu HOMEOPATA NATURALISTA resolveu que eu precisava de florais, mas também de uma receitinha de Frontal. Eis que minha querida e gloriosa Karen Carpenter me liga. Voltou para a cidade-que-peida por um mês. Depois de seis horas na estrada, direto de Curitiba, desceu na Berrini, abriu o peito e encheu os brônquios, deleitada com o ar sólido de São Paulo. Segundo a própria, "aquele ar puro de bosques frutíferos da minha cidade me dá nos nervos. Eu detesto silêncio!!!". Fomos comer lombo de porco com tutu de feijão, tomamos cervejas, fomos derrubadas por uma lauta refeição. Adoro a Karen, ela é uma das pessoas mais espontâneas que eu já conheci. |