Boca de Lixo
Toda vez que eu assisto a um filme (como esse aí do título) que de alguma forma denuncia o que acontece de ruim no mundo, penso na ilusão do poder da imagem. A gente, como espécie que se fia nos sentidos para sobreviver, e principalmente no sentido da visão, sempre circundou a imagem de uma aura que talvez ela não tenha. Quantas vezes eu já ouvi gente dizer que se houvesse uma transmissão direta do holocausto ele não teria ocorrido? Mas não é verdade. A imagem nos revolta, nos paralisa, nos enoja ou nos emociona, mas o que entra pelo coração parece virar um pensamento, que poderia levar a uma ação, mas que dificilmente leva. Às vezes a gente coloca a responsabilidade na imagem: ela banaliza o sofrimento ou ela é fantástica, destaca o que acontece, aproxima de nós certos assuntos espinhosos. Mas a responsabilidade é nossa mesma. Por que a imagem é apenas uma linguagem, um instrumento. O que fazer dele é gente que vai determinar. Eu ando tendo dificuldades: o mundo tem me parecido muito massacrante, muito restritas as possibilidades...

Manhã de sexta feira
Bem cedinho, sete horas, e tinha um CAVALO na ponte da Freguesia do Ó, andando mui tranquilamente na contramão, enquanto todos os carros desviavam.

Suposições
Uma fazendinha. O sol na cara e o café na boca. Sem açúcar.
Nessa situação, eu viveria do que?

E durante o dia
Eu chorei por causa da humanidade. Que banal. Horas de terapia gastas na afirmação da falta de jeito do mundo numa segunda feira chuvosa em que tudo foi cancelado pela graça de deus e eu me enfiei debaixo de um cobertor, das novelas e de um pote de brigadeiro. Não que eu nunca mais vá acreditar, a bobeira está voltando, eu sinto, a dose de crença no sangue está se normalizando, mas é só que às vezes é estupidez demais para digerir numa manhã.

Noitadas
Ando sonhando muito, toda noite uma peripécia, histórias compridas e malucas. E voltei a escrever de verdade. O que quer dizer escrever para mim coisas que só mais tarde talvez façam sentido para outros. Por que eu sempre ficava irritada com a lógica da comunicação que eu me impunha, sempre achava que escrevia parecido com tal e tal neguinho, e ficava mostrando para uns amigos pra que eles me ajudassem. Eis que eu estava escrevendo demais para eles, e cada vez menos satisfeita. Por que eu não estava me narrando, estava contando histórias dos outros através do incrível dom que eu tenho de juntar sujeitos e predicados. Ter começado me permite começar também outras coisas. Eu andava com um pavor medonho de sentar na cadeirinha cor de rosa e por os dedos no teclado por que isso significava tomar umas decisões na vida. Vamos ver. Aos trancos, vamos ver.

Cenas da cidade
Ontem de manhã, no meio da zona causada pela greve nojenta que ainda acontece em SP, crianças andavam de bicicleta pelos corredores de ônibus vazios. Era Amsterdam em plena Freguesia do Ó.