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Me enojam. Me enojam. Me enojam. Me enojam as cenas da polícia jogando água nos manifestantes, me enojam as imagens de soldados iraquianos rendidos, magrinhos, amarrados, com o olhar perdido, enquanto marines alimentados a leite A os conduzem. Para onde? A gente não sabe. Me enojam as cenas de outros soldados iraquianos rendidos sendo "entrevistados", obrigados a dizer que desertaram por que os Estados Unidos estão lá para salvar o Iraque, e portanto não fazia sentido que eles resistissem. A câmera fechada provavelmente ocultava a pistola apontada. Me enoja a pretensão bizarra de uma guerra limpa "sem baixas", "rápida", como eles dizem. Me aperta o coração a imagem de um egípcio, levantando o dedo indicador e dizendo não sem parar, todo molhado pelo jato d´água de um Brucutu nas ruas do Cairo. Ele somos nós. Nós somos ele. A imagem da nossa impotência, a imagem da nossa insistência. Bush = Hitler. Árabes = Judeus. Que outra coisa explicaria deportações, detenções sem defesa, campos de refugiados e agora a prisão de milhares de pessoas que se manifestavam nas ruas dos EUA? E eu, na minha ingenuidade antiga, achava que o Holocausto só tinha acontecido por que as pessoas do mundo não sabiam que ele estava acontecendo. Agora temos CNN, Globo, Cidade Alerta, etc, ao vivo e 24 horas por dia. E não mudou nada. A gente até protesta, mas ninguém ouve. Então a gente desacredita e recrudesce e fica assistindo às notícias como a um grande vídeogame. Benvindos ao novo Holocausto, ao vivo, à cores, em tempo real. Me chamem de exagerada, mas é assim que eu me sinto. E tô com vontade de jogar um pedregulho enorme na janela embaixada americana. Mas não vou fazer isso. Pelo menos por enquanto, por que eu ainda acho violência uma coisa muito patética. Hoje de manhã, no carro, ouvi Peter, Paul and Mary cantando, há tantos anos. E me arrepiou o fato terrível de que as mesmas perguntas continuam sem resposta, continuam retórica e poesia quando deveriam ser um relatório ditoso como o censo do IBGE. How many roads must a man walk down Before you call him a man? Yes, 'n' how many seas must a white dove sail Before she sleeps in the sand? Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly Before they're forever banned? The answer, my friend, is blowin' in the wind, The answer is blowin' in the wind. How many times must a man look up Before he can see the sky? Yes, 'n' how many ears must one man have Before he can hear people cry? Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows That too many people have died? The answer, my friend, is blowin' in the wind, The answer is blowin' in the wind. How many years can a mountain exist Before it's washed to the sea? Yes, 'n' how many years can some people exist Before they're allowed to be free? Yes, 'n' how many times can a man turn his head, Pretending he just doesn't see? The answer, my friend, is blowin' in the wind, The answer is blowin' in the wind. A resposta talvez seja: nós não sabemos, por que, acima de tudo nós somos estúpidos. Outro casamento. Mas nesse eu queria ter uma câmera. Estudo antropológico ali na minha frente, a mãe da noiva era uma espécie de Dercy Gonçalves que foi muito à igreja, havia sanduíches de carne louca e tocava Twisted Sisters a sério no salão. O mundo não é mesmo um lugar habitável. A família Mole saiu da festa nervosa e fugida, nos refugiamos no restaurante próximo e rezamos para que ninguém conhecido entrasse e nos descobrisse, enquanto comíamos toneladas de rosbife com salada de batata. O sábado passou e quando eu dei por mim já eram quatro horas da tarde do domingo. E viva o Corinthians. Sete da manhã, Karen Carpenter se esgoelava no rádio do carro a dizer que mondays and rainy days always let me down, o dia já havia há muito começado, tempestade chinfrin e alagamentos, a moça para quem eu dou aula confessou seu pânico semanal ao ouvir a música do fantástico. Estava dada a largada. |