PRE-GUI-ÇA
Colação de grau na FAU, cervejinha no bar mais de arquitetos da cidade, o equívoco corrente de que eu também me formei, velhos amigos, ex-namorados, quantidade imensa de pessoas numa mesa tamanho pizzaria inconversável. Mas foi bom ver as caras deles. E hoje teve café da manhã na padaria, carona e amorzinho, sono, vontade de fazer absolutamente nada, almofadas e tapetinhos. E a dura tarefa de convencer um homem a usar sandálias. E depois casamento e meia calça com trinta graus de calor lá fora. Não quero. Quero ler Mrs Dalloway de camisola, ouvir Soniquiuti e passear de carro no por do sol. Momento minutos de sabedoria: os prazeres da vida podem ser muito simples.

E para completar este dia adorável
É oficial. Tive a pior aula de Ioga de toda a minha vasta experiência de estica-e-puxa. Saí de lá com vontade de fumar um maço de cigarros, encher a cara de uísque e usar heroína. Tudo por que minha professora velhinha fofa operou a catarata e foi substituída por uma japonesa gestapo descuidada que conseguiu tirar meu frágil pescocinho do lugar. Ela ficava falando de concentração e interiorização mas era a pessoa mais áspera que eu já conheci num contexto assim. Não explicava as posturas e ficava dizendo "você está fazendo errado" mas não mostrava o que era para fazer. Durante o relaxamento ela falava aquelas frases típicas do jeito mais tenso do mundo. Eu fiquei chorando de ódio e imaginando maneiras de causar nela a dor que eu estava sentindo no corpo. Ainda bem que estava escuro. Ódeo.

Agradeço minha disposição MR-8 de hoje
A Che Guevara, ao Grupo Krisis, a Heidegger e ao Sr. Ray Davies e sua músiquinha Yes Sir no Sir.Permission to speak sir, permission to breath sir, what do I say... how do I behave...

Ratos de laboratório
Em alguns dias da minha vida eu tenho plena certeza de que as gentes correm de um lado para o outro por puro hábito. Que falam e não se entendem, que trabalham e não produzem nada por que não há nada relevante para produzir. Mas todos apertam os olhinhos e se ocupam. Dá vontade de sair gritando: BESTAS DE CARGA VOCÊS VÃO MORRER E NÃO TEM TODO TEMPO DO MUNDO! Párem com as atividades sem sentido. Párem de ser ansiosos. Vocês me deixam com azia, olhos esbugalhados, dores no corpo, impulsos assassino-suicidas. Odeio essa mania que vocês tem de correr atrás do queijo.

Burn, baby burn
QUEIMEM a Universidade. E tenho dito.

Olha que bonito
"Na ciência, quando ocorre o momento da descoberta, a lógica é substituída pela intuição. Na arte, como na religião, a intuição equivale à crença, à fé. É um estado de alma, não um método de pensamento. A ciência é empírica, ao passo que a criação de imagens é regida pela dinâmica da revelação. Trata-se de uma espécie de lampejos súbitos de iluminações- como olhos cegos que começam a enxergar; não em relação às partes, mas ao todo, ao infinito, àquilo que não se ajusta ao pensamento consciente"
Tarkovski, em Esculpir o Tempo.
É discutível, mas é bonito.

A pequena escapada
No ônibus para o trabalho. Cinco da tarde, Avenida Pacaembu, e eu toda feliz a olhar pela janela. Chamem-me de louca, mas eu gosto de andar de ônibus. Acho que ninguém conhece uma cidade se só anda de carro. Andando de ônibus eu descubro coisas nunca dantes navegadas nas esquinas por onde eu sempre passo, na cara das pessoas, no isqueiro emprestado do mocinho no ponto, nos dentes obturados da cobradora. Eu gosto e me faz respirar.

A grande escapada
Mais um dia daqueles. Por dentro, por que por fora estava tudo bem. Mas é como o zumbido da geladeira, que a gente só percebe ser incômodo quando acaba a luz. Hoje acabou a luz em mim lá pelo meio dia. Eu estava cansada, não queria fazer nada do que tinha para fazer e precisava ir a um lugar que eu não sabia onde ficava (este é um dos meus únicos pânicos na vida, sou péssima com mapas e itinerários de ônibus e guias quatro rodas que sempre viram de cabeça para baixo à minha revelia). A geladeira zumbia, eu me senti sozinha apesar de não estar. Por que não era solidão de sentir falta. Era incomunicabilidade, era essa certeza que me bate de que palavras servem mesmo é pra separar as pessoas. E eu pensei: no lugar das palavras, imagens. Mas também não era isso. Só aparecia a nitidez do contorno do meu corpo contra a nitidez dos contornos dos outros. Apesar de todo amor, só eu sou responsável por achar os caminhos. E como eu disse, eu sou péssima com os guias.

Velhinhas
Eu sempre olho para todas as velhinhas passando na rua, a maneira como elas se mexem, o jeito de carregar as sacolas, o jeito de ajeitar os cabelos. Algumas são mais lépidas, outras vagarosas, algumas vaidosas, outras desistiram.
Ontem eu vi duas que conversavam com os rostos bem próximos. A mais alta devia ser já meio surda e se esforçava para escutar a amiga pequena. A baixinha arrumava a gola da blusa da outra num gesto de extremo cuidado. Pareciam companheiras e conhecidas de muitos anos. Eu ouvia Belle & Sebastian no rádio, uma daquelas músicas apropriadas para cenas singelas. Me deu vontade de sair do carro e abraçar as duas. Achei bonito, nem sei por que.

Descobertas do dia
Meu primeiro namorado era irmão gêmeo do Valderrama. Só que sem o cabelo.
Fazer molho de tomate e feijão no mesmo dia é mutilante.
Mousse de chocolate é orgásmico.
Ser dona de casa enlouquece.

Prosaica
O dedo do pé dói, tomei uma exorbitância de café e não fui à papelaria. Nasceu um filminho novo hoje de manhã, graças aos meus pupilos de Inglês. Me encanta ver histórias nas caras das pessoas mais comuns com quem eu convivo. Ioga de noite. Amanhã quero comprar um presente, cadernos e canetas. Decidi voltar ao papel, a lógica é outra, menos fragmentária, e me obriga a pensar. É menos oficial também. Leio um livro bom, estou faminta de aprender coisas.

Saturday Night Fever
Eu dei uma de louca mais uma vez. Estava na festa de aniversário da amiga, estava tudo bom, músicas, queridos e queridas, balas de goma. Eu dançava feliz. E de repente peguei a bolsa e fui embora, eu só queria sair andando. Dirigi até o centro da cidade, olhei as luzes, voltei. Depois fui parar numa casa cheia de luminárias anos sessenta e outros cacarecos da modernidade com outro amigo perdido na madrugada. Eu assistia a tudo como se a vida dos outros estivesse projetada numa tela. E ao contrário de outras vezes em que eu já tive essa sensação, foi bom. Foi bom e divertido como ir a um cinema que tivesse cheiro e gosto e drama na carne.
E depois eu fui embora de novo. Não tem nada mais bonito e pleno do que o ato de agarrar a bolsa e abrir a porta quando a gente tem vontade.

Domingando
Ontem P. veio para café almoço e janta e nós abrimos a enorme caixa de playmobil que eu herdei. Brincamos a tarde toda, duas marmanjas feito crianças, e foi uma surpresa perceber que eu ainda sei inventar histórias com bonequinhos e que guardar os brinquedos continua sendo a parte mais chata de tudo.
Assistimos a um filme, também. Um filme de três anos atrás. Na passagem de 1999 para 2000, nós duas fomos, com nossos respectivos namorados da época, para Campos do Jordão. Passamos quase uma semana lá. E como P. tinha acabado de comprar uma camerinha, fizemos caras e bocas e dançamos e preparamos comida para as lentes. Nossa cara era engraçada, parecia que a gente achava que alguma coisa grandiosa ia acontecer com a gente. A felicidade estava começando. A gente ia explodir. Era tudo muito importante: a roupa, o tom da voz, as bandas que a gente gostava. E nos achávamos muito espertas, malandríssimas.
Foi engraçado ver este filme justo agora, depois de umas porradas da vida e de passar ano e pouco reclamando, lamentando crescer, melancolicamente falando para quem quisesse ouvir que antes era melhor. Por que não era melhor. Só era. E a minha cara lá na fita tinha mais ilusões mas também sabia de menos coisas e era mais insegura e sofria para impressionar todo mundo em volta. A fita era um reencontro com o antes bem mais fiel do que as minhas memórias romantizadas.
Eu e P. começamos a assistir ao filme um pouco assustadas, achando que teríamos aquela dor de barriga que a gente sempre tem quando vê coisas que perdeu. No entanto, a gente ficou feliz. Deu risada, sentiu uma coisa boa de ter um passado compartilhado. E depois foi comer uns tacos, tomar café e decidir se agora a gente queria ter uma banda ou um grupo de estudos de filosofia. Porque é bom estar dentro da vida, com ela acontecendo por todos os lados.