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Tenho sonhado muito. Com casamentos alheios de pessoas que já foram importantes, com exposições, com conversas que eu tenho na vida real e com conversas que eu não tenho também. Está tudo lá, nos mínimos detalhes, ontem foram as cartas de banco imobiliário onde a gente tirava a sorte, elas tinham bordas redondas como as bordas dos cartões que eu comprei para decorar a parede da sala. As conversas dos sonhos são sempre muito esclarecedoras. Só não sonho quando eu estou realmente triste. São períodos de mudez. Eu gosto de sonhar por que sei que quando eu sonho, de algum jeito, a vida está andando. Eu nunca mais farei esforços que não estou pronta para fazer em nome de qualquer civilidade. Um falava da tristeza que sente de nunca ter certeza do amor incondicional que espera das pessoas. Os outros explicavam que nada de tão absoluto existe. E que melhor mesmo é levantar a barra das calças, atravessar o rio e continuar vivendo. Esculpir o tempo, de Andrei Tarkovski. Ainda não posso dizer nada, não passei da introdução. Que filme doloroso. O beijo da Virgínia Woolf na irmã, como quem tenta sugar um pouco de vida da boca da outra. A idéia de que se fica vivo para os outros. A sensação ao mesmo tempo terrível e bonita de olhar para o lado e encontrar alguém querido e pela primeira vez pensar que ele é finito e que me faria infinita falta. O fato incontestável de que VIDA é o que a gente vive TODO DIA. Que filme. Cantamos Debaser aos berros, junto com o rádio do carro, tomamos fanta morango, fizemos macarronada, paramos para o xixi, olhamos as caras das pessoas estranhas do boteco, escapamos da egüinha pocotó, nadamos, fomos vítimas de uma colisão traseira e nosso carro era o da frente, ficamos alegres, tensos, quietos, falantes, fumamos, bebemos caipirinhas, andamos muito, torramos pouco, preguiça de sair da cama, não jogamos baralho, esgotamos todos os sonhos reveláveis, tomamos picolé do Rocha, tomamos caldo. Depois de três dias na praia, a voz da amiga perdida (tão perdida quanto eu...), uma dor no ciático, uma vitória do Corinthians e uma tarde de café e livros. Quando não estou aqui sinto pouca falta da cidade. Gosto mesmo é do momento preciso em que ameaça cair a tempestade no meio da trilha de onde se vê o mar afoito, cheio de carneirinhos. O vento ruge, caem as primeiras gotas de chuva, é tudo imenso e eu sou feliz. Aqui as janelas estão sempre fechadas por causa do barulho, o que dificulta a respiração e a vida. |