Ziriguidum
Pronto. Até a quarta feira de cinzas eu fiquei burra, assisto novela, faço compras, vou para a praia desfilar meu enorme biquini de frô. E dane-se a minha cabeça grande que pensa coisas.

Campanha me poupe de ver o Tony Ramos sem camisa no horário nobre
Sim, eu resolvi fazer uma besteira. Assisti a um capítulo daquela festa de família ininterrupta que é a novela das oito. Todos os diálogos parecem saídos de festas de Natal (antes do tio bêbado), batizados, aniversários de primo e eteceteras. Até os pobres tem piscina. Todos são belos e lindos. E ficam se olhando e piscando e sorrindo. Inclusive a menina adolescente que acabou de perder a mãe. Ela lá, com a Helena Ranaldi professora de educação física de biquini, e eu cá a imaginar que bom mesmo seria haver um romance entre a professora e a aluna. Por que alguma coisa que tem que acontecer no folhetim. Sexo, intriga, rock. Pelamordedeus.
E o Tony Ramos sem camisa devia ser proibido pela liga das senhoras estéticas. Nojo.

Consolos de perua pobre
Hoje eu fui na Cristal, o Mundo das Roupas, vulgo Brechó Nojentão. É adorável: com trinta reais, paciência e um punhado de sabão em pó eu renovei meu guarda-roupa. Quatro camisas e uma saia linda. Por que a vida também é feita de coisas fúteis e baratas.

Acqua calda
38 graus lá fora. Ontem eu estava triste. Por que viver dá trabalho. Meu corpo agradeceu os contorcionismos do Ioga na aula da velhinha tagarela, eu cheguei em casa exausta, tomei guaraná, chorei por hábito, capotei no sofá e não fui na festa. Por que eu ainda estou perdida. Tateio caminhos que sempre parecem estar no lugar de outros caminhos mais... certos? Menos tortos? Mas eu insisto, apesar do cansaço. Se alguém descobrir a resposta antes de mim, por favor me conta.

Acqua Alta
Eu não posso ver fotos de Veneza. Me dá um nó, uma saudade, uma aperto que é ao mesmo tempo terrível e bom, como todas as coisas que fazem a gente se sentir vivo. A lembrança daquela água verde, dois dias no meio do inverno italiano a me perder pelas vielas, sem mapa, sem medo, as crianças de uma escola brincando no meio da rua e as freiras olhando por elas. Nenhuma fotografia, todas as fotografias dentro dos meus olhos que, por falta de suporte, câmera e papel, queimaram as imagens direto na retina. Tem dias que elas voltam como se eu estivesse lá, quase alucinações de uma época ainda boa, em que acreditar era parte integrante da vida.
Pareceu tanto tempo, foram dois dias. Que eu não esqueço, nem quando preciso esquecer.

Cochilos
Acabo de sonhar que estava a caminho de um jogo do São Paulo particularmente violento (havia PMs atirando para o alto e homens com serrotes nas mãos). Ia com meu repórter policial predileto e com a Karenilda. Antes do jogo, passávamos num café muitíssimo madrilenho que ficava ao lado do Morumbi, cheio de madeiras, vidros e dourados, pedíamos expressos e eu sentava num banquinho alto do qual eu caía trinta e cinco vezes, enquanto meus amigos me olhavam do canto meio espantados e abraçados. O garçom comia um pacote enorme de cheetos e usava um smoking branco, e eu também derrubava uns pratinhos de nozes cobertas com quilos de calda de chocolate. Lá fora o pau comia e a gente ouvia e ficava aflito, por que era hora de ver o jogo.

A vida acadêmica circa 2003
Passei a tarde tentando fazer um projeto de intervenção psicossocial na PM parecer um bom investimento para empresas financiadoras com responsabilidade social. Ou seja, passei a tarde tentando vender um peixe indigesto, passando o chapéuzinho, à cata de trocos para um projeto que devia ser financiado por um ESTADO FALIDO que nem se lixa. E o resto do mundo acha que trabalho social é coisa de voluntário. Eu sou contra o trabalho voluntário.
E eu quero ser artista, saco!

Amar é...
Um homem não comer toda a pizza left-over de ontem no café da manhã.
Ele deixou o último pedaço pra mim.
Suspiro.

Plano Profissional número 914
Vou dominar o mundo através da educação à distância.

Enquete
Pergunta acadêmica de hoje: qual a diferença entre o impacto da imagem e o impacto da palavra?
Meu estômago sabe qual a diferença, mas meu cérebro explicador não consegue colocar isso em palavras. O que é da própria natureza da imagem mesmo. Mas como, meu deus?
Sim, eu estou estudando.
Odeio a palavra "impacto". Cheira à músculos, acidentes de carro e Cidade Alerta.

Tsc, tsc, eu sou assim mesmo
Esmalte de unha, Marx de araque e urbanismo num só dia. Blá.

País vagabundo
Hoje voltei à Zona Leste mais uma vez. Eu nasci lá. E me deu susto: o lugar em que fica a escola onde eu estudei doze anos da minha vida está sujo, feio, mal cuidado, pixado, cheio de lojas com luminosos maiores que as próprias portas. A cidade inteira não está muito melhor. Apesar do refresco das quaresmeiras em flor.
As pessoas estão mais fodidas, tinha três guardadores de carro num espaço que não devia dar nem pra um, um cara foi baleado na marginal pinheiros, e blá, blá blá. E a minha bolha não funciona, meu bem, ela não anda amortecendo muito bem os meus sentidos. Na beira do Tiête fiquei fazendo as contas pro meu projeto imaginário de paisagismo, e tudo pareceu tão grande... No entanto, há gente correndo para todos os lados, o tempo todo. E gente correndo na esteira, e gente gastando dinheiro na daslu, e gente comprando quinze quilos de carne pra fazer churrasco e grana desperdiçada na vala da vaidade. Eu também gosto de vaidade, mas alguma coisa me cheira a exagero em muitas das coisas que a gente faz. Muita energia dissipada, pouca vida coletiva.

Os misteriosos Bobes
Quando eu era pequena, ia com a minha avó no salão de cabeleireiro da Emília. A Emília era uma japonesa que eu achava que tinha um metro e oitenta, meio brava, e que passava o dia esticando, puxando e colocando bobes enormes nos cabelos da mulheres do bairro. Depois ela usava um laquê que vinha num vidrinho pontudo que me encantava. Ela cortava o meu cabelo em forma de tigela (atire a primeira pedra qualquer criança nascida nos anos setenta, menino ou menina, que não usou este corte de cabelo unisex - adoro essa palavra- lá pelos sete anos de idade) e de vez em quando pintava as minhas unhas de laranja. Do alto do salto enorme da minha melissinha eu tentava entender porque aquelas mulheres se enfeitavam tanto. Porque ficavam tão felizes lendo suas Amigas (a Caras da época), porque pediam o cabelo igual ao da novela, porque passavam horas com algodões nos ouvidos e uma redinha na cabeça embaixo daqueles secadores de ficção científica. E por que eu também gostava daquilo.

Lista de compras
1- Fósforos
2- Coador de café
3- Lenços de papel
4- Gelol
5- Disciplina

Propaganda
Hoje eu fui à Livraria da Vila, lá na Fradique Coutinho, sei lá que número, comprar um livro. Toda vez que eu vou lá, sou tão bem tratada que dá vontade de abraçar o vendedor. E tem café, silêncio, cheiro bom e discos estranhos também.

Às vezes viver dói tanto
Dói por hábito, dói por medo, dói sem ter muito porque, às sete horas da manhã. Dói por que a gente é feita de carne e memória, dói porque aquele talento que a nossa mãe disse que a gente tinha quase ninguém percebe, dói por que o pão não estava quente o suficiente na padaria. Dói por que a gente descobre na mesma sala três pessoas de quarenta anos que leram o último livro há mais de dez por que não têm tempo, dói porque a vida pode ser comezinha e sufocante. Dói por que não existe certeza nos caminhos.
E depois pára de doer. E a gente se vinga, insistindo em continuar.

E isso serve para outras coisas
Até para a pontinha de calça jeans que roçava o meu joelho acidentalmente por baixo da mesa e insistia em apertar um pouco o meu coração. Por que não dá para voltar atrás na vida.

Este não é mais o meu lugar
Dormindo na casa dos pais para tomar conta do cachorro percebo que cresci pra muito além das paredes do meu velho quarto. Agora eu sei cuidar de coisas, das minhas coisas, e não me sinto mais em casa aqui. Sou visita, e tenho uma vida bem diferente da que eu tinha. Houve tempo em que eu sentia saudades, mas hoje não me deu saudade alguma. Não dá pra voltar atrás na vida.