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Torcicolo, café do Franz Café, pernilongos, tristeza de manhã e gente que não me escuta. No Jambo, o melhor restaurante chinês-de-verdade que eu conheço. Esqueça o frango xadrez e afins. A comida lá é muito fina. Ostras, mariscos, lulas com nirá, peixes fantásticos, bolinhos de camarão inacreditáveis e de sobremesa A Bolota. A bolota é um bolinho de massa de arroz recheada com massa de feijão azuki doce, envolvida em gergelim e frita em banha de porco. Eu sei, eu sei, parece desastroso e nojento. Mas não é. É maravilhoso. Comemos muito, falamos sem parar e chegamos à conclusão de que estamos naquela parte da vida situada entre os prazeres do sexo e os prazeres da comida (minha avó diz que depois vêm os prazeres da farmácia). A melhor parte, portanto. Final da tarde. Sexta feira. Rua Aurora, Boca do Lixo/Luxo, o centro brilhando de garoa e nós a tomar chopp no Bar do léo. Em frente, num posto de gasolina, um carro tocava músicas românticas breguíssimas e alguém recitava poesias. Era um serviço de telemensagem que uma mina tinha contratado como presente de aniversário para o homem dela. Do lado de cá da calçada, as hordas ébrias do happy hour batiam palmas e proferiam insultos frente a tão escabrosa cena. Se alguém um dia me mandasse uma telemensagem, eu mandava de volta um matador de aluguel. E ontem eu conheci a base brasileira na Antártica por dentro, vi meu amigo e falei com ele, ouvimos a voz um do outro e ele me mostrou o que via da janela da biblioteca da estação. Lá fora havia ventos de 90 km por hora. Era uma vastidão cinza de pedra, com torres ao fundo e montanhas brancas. O lugar mais deserto de gente do mundo. Deve ser tão bonito... um dia eu ainda vou lá, ver o gelo mais antigo da terra. E ele volta logo, pra tomarmos uns chopinhos. Pronto, já tenho uma cópia do filme. Agora os amigos vão ter que aguentar a chata da fitinha... Tenho tido sonhos bizarros. Outra noite eu era autora e diretora de UMA NOVELA DAS OITO DA GLOBO. Fazia um tremendo sucesso, o folhetim. Era sobre pessoas com dificuldades para escolher profissão, suas paixões, seus dramas. E logo depois eu estava no aeroporto de Cumbica e perdia um avião por estar no aeroporto errado, já que meu voô deveria sair de Santo André. Que não tem aeroporto. Às vezes ela fica chata como um pão pitta amassado. Me dá uma coisa esquisita ver projetos dos quais eu acompanhei o embrião virando coisas, objetos, trabalhos. É como um maracatú na ladeira, o tambor batendo e o peito quase desfalecendo. Tenho sentido isso ultimamente, e senti hoje de novo. Foi bonito ver G. lá, defendendo seu projetinho, e os amigos em volta, e o fato de eu ter podido ver aquilo. Os anos que se passaram, no saguão uma leva de bixos gritava e corria com a cara pintada e lá em cima era um fim. E um recomeço por que essa é a coisa mais importante de todo fim. Acabou essa parte da vida. E mistura aqui no meu coração uma vontade meio epifânica de chorar e uma felicidade pela permanência das coisas. Eu também entendi umas diferenças. Mas isso é outra história. Que o Tom Jobim ouvia Debussy, MUITO Debussy. Talvez por que a água já esteja batendo no nariz. Horas de trânsito me fazem ter a impressão de que, bastou chover, todo mundo tira o carro da garagem. Deve ser para economizar no lava-a-jato. De manhã tocava uma valsa no rádio do carro e era tragicômico o movimento de gentes-pinto-molhado e kombis kebradas e poças esvoaçantes por toda a parte. Eu não fiz nada. Nasceu uma rosa na minha boca. Mais tarde evoluirei espiritualmente pelo sofrimento do corpo na aula de estica e puxa. Amanhã é dia de matrícula no curso. Já arranjei ótima companhia. Ai, estou muito cacete (adoro esta expressão portuguesa). E o figurino de hoje foi: sapatinhos pretos-capinha (gabardine, como dizia a vovó) de chuva vermelha-bolsinha. Só faltava alguém ter me chamado de Emília pela rua. Emília-agressiva-techno. Glub, glub, glub. Acordei às cinco e meia da manhã. Por causa de um sonho ruim onde pessoas queridas e pessoas queridas de pessoas queridas simplesmente esqueciam ou trocavam meu nome. E eu brigando com elas. Por que era descaso e falta de atenção. Foi bom revê-los. Jogamos master aos berros e fizemos uma paella colectiva e maravillosa. Todo mundo crescendo, uns tiveram filhos, os outros abriram distibuidoras de cinema, outros reurbanizam favelas, outros fizeram filmes. Todo mundo com aquela cara boa de depois da tempestade, quando a gente começa a entender o porque de tantos raios e trovões. Todo mundo na batalha, mas sem amargor. Só com o peso exato das coisas do mundo e um sorrisão feliz de quem vai ao encontro. A gente se vê em aniversários. Mas ainda se vê e cada visita parece uma volta à casa, pelo menos para mim. |