Enfim
Estou feliz. Um caminho se desenha. Depois daquela conversa de ontem. Depois de ter sido pescada do limbo na hora certa. Às vezes os anjos existem, e para a minha sorte são muitíssimo teimosos.

Pichação
No muro da USP: O inferno é mais barato.

Entre um e outro afazer do dia
Li mais da Cartas do Caio F. O organizador (Ítalo Morriconi, que pra dizer a verdade, não me agrada muito: ele escreve sobre os amigos escritores dele com aquela pompa de Professor Universitário de Literatura que dá nos nervos) foi sacana o suficiente para colocar as cartas da metade final da vida do Caio no começo do livro. Passa da morte dele para a segunda parte, escrita quando ele tinha vinte anos. O que isso significa, em termos práticos? O leitor passa mal. Por que depois da morte do cara vem toda aquela ilusão juvenil que ele nutria sobre Ser Um Escritor Famoso, vem cacoetes de linguagem, palavras e tempos verbais elaboradíssimos, empolações. E tudo isso despencou ao longo da vida de Caio F. Ele ficou mais desiludido e melhor. Mas de qualquer forma é estranho perceber que eu, leitora (atenção Revista Marie Claire) estou no meio do caminho disso tudo. Perdendo as minhas ilusões docinhas dos vinte anos. E ainda sem nada melhor pra colocar no lugar, empolada e cheia de vícios.
Parabéns, Sr. Morriconi. Se era isso que querias, conseguiste.
Vou ligar para a analista. Quero as minhas ilusões de volta.

Tá, tá
Estou numa fase PCdoB, polícia ideológica de mim mesma.Depois passa.

Cena de rua
Voltando do trabalho, nove e meia da manhã, avistei um homem que lavava roupas embaixo do viaduto da Sumaré. Ele tinha um colchão velho, uma calça, uma camisa, o short que estava vestindo. Ensaboava a calça estirada na calçada. Imediatamente eu pensei: que dignidade! O que faz uma pessoa tão sem nada ainda insistir em limpar sujeiras do corpo? E em seguida, menos poética cretina: dignidade nada. Digno seria um mundo onde cada homem tivesse a possibilidade de um tanque para lavar suas roupas, uma casa, um lugar.
A poesia não sobrevive à vida. E eu não sei se ela liberta a gente ou só faz vermos beleza onde não há. O que nos exime de fazer qualquer coisa sobre.
Eu também não faço.

Gladíolos
É isso que eu sou. Uma florzinha. Com todas os sentidos cretinos que pode ter esta palavra. Oito volumes de diários, crises existenciais e amores perdidos. Tenho enjôo de mim mesma. Farei um intensivo Graciliano Ramos/Rubem Fonseca/João Cabral de Melo Neto pra ver se melhoro. Não aguento mais escrever sempre sobre as mesmas coisas, com a mesma pretensa poesia. Florzinha branquinha bonitinha. Isso que dá ter lido toda a Clarice Lispector com dezenove anos. Entendi tudo errado. Epifanias, epifanias, epifanias. Che me ne frega, os outros não querem saber das angústias solitárias de uma menininha. Está na hora de virar homem. É tão difícil.

Eu não ia falar nada, mas
O mundo é muito sórdido. E vai ficar cada vez mais sórdido enquanto a gente continuar a viver como máquinas, a se tratar como máquina, a achar que o nosso corpo e a nossa cabeça são imperfeitos e devem ser mais parecidos com máquinas. É tudo culpa de Descartes, o humano mais humano no sentido mais podre da palavra.

Inspiração 0 X Transpiração 4
Algo a ver com os 35 graus lá fora, 40 aqui dentro. Não consigo pensar, não consigo ler (estou entupida com as cartas do Caio Fernando Abreu, são lindas mas me fazem mal às vezes), Benjamin me dá sono, não vislumbro saída, dei aula às sete da matina, cozinhei feijão, fiz pão, saúde ruinzinha inespecífica, um zumbido eterno me atormenta por dentro da cabeça. Uma doninha de casa mal posta, é isso o que eu me tornei hoje. Una béstia. Vou dormir ou enfiar a cabeça num balde. Espero que haja edição de filme por que preciso de gente inteligente a puxar pra fora a carne desta ostra que vos fala.

Já sei
Vou tomar café, ora bolas!

Lá vem a noiva, toda de branco...
Casamento no Mosteiro de São Bento. Chegamos lá embaixo de uma divina chuva de pedras, granizo para todo lado, água caindo na horizontal e o pobre carrinho que virou zabumba de banda de forró. A cidade estava linda debaixo do aguaceiro. Atrasadíssimos, como sempre, vimos a versão editada da cerimônia: eu vos declaro marido e mulher.Só. Depois a festa, lá no Anhangabaú, uma vista e tanto da janela, um calor saariano, proseccos e bebidinhas e eu, uma mulher que tinha comido apenas dois figos durante a tarde. Dançamos Pepeu Gomes em meio aos queijos bries, fizemos passinhos e a noiva jogou o buquê. Eu peguei o buquê!. Algumas horas depois, eu passei muitíssimo mal. Foi o calor, foi a birita, foi o fato de eu ter chacoalhado a cabeça um pouco demais enquanto dançava? Não, foi o buquê mesmo. E no final, o topete cara-de-rica que eu tinha feito no cabelo caiu todinho. Des-mon-ta-da!
Agradeço a meus amigos pacientes e carinhosos que cuidaram de mim. Peço desculpas também.
Alguém até se lembrou de colocar um bem-casado na minha bolsa, pra hoje de manhã...
Eu estou morrendo de vergonha.