E este é um fim de semana cheio de casamentos
Eu acho bonito, tá?

Cultura FM
Tomei café da manhã olhando o jardim minúsculo na varanda do apartamento e ouvindo ópera (Turandot?) no rádio. Tenho gostado de ouvir rádio. Os locutores da Cultura e suas vozes graves de erudito, a pretensão intelectual universitária, gente culta e fresca, tudo isso me faz rir entre um concerto e outro. Ontem foi a Sinfonia 45 do Mozart (acho que é isso, e é apelidada de Júpiter) na chuva das seis, a Rebouças entupida e eu pensando em planetas. Minha cabecinha se movia no compasso da música, minha mãozinha regia a orquestra entre uma e outra troca de marcha.
E depois tocou Piazolla.
Outro dia eu percebi a diferença entre meus concertos queridos e meus róquis prediletos. Meus concertos me permitem imaginar.

Exercício
Manhã. Ontem foi um dia bom e exaustivo, tentando tatear qualquer definição. Não sei, não sei. Vai se desenhando, mas não sei. E hoje de manhã, pela primeira vez em anos, eu tive coragem de escrever. Um conto, sobre um polonês triste. Um conto sobre a surpresa que eu sinto de ver que muitas pessoas não tem nenhum pudor de passar pela vida sem brigar por qualquer felicidade. Eles achavam que estavam brigando. Mas não estavam. Ou fizeram só o que podiam. Às vezes, o possível me parece muito pouco. É uma história sobre mortes e tempo passando também. Só tenho conseguido escrever sobre o tempo passando. Talvez por que eu tenha finalmente entendido que isso acontece. Meus textos mais antigos eram de um presente atroz. Ou falavam de um passado perdido como se fala de coisas que não podem ser esquecidas. Agora eu sei que o esquecimento é bonito.
Fiquei aqui quatro horas que voaram. E me lembrei do prazer imenso que é não ter tanto medo.

Palavras de Scarlett
Nunca mais passarei por cima de mim mesma novamente. Meu corpo é o limite mais claro de tudo. Quando eu tenho que fazer qualquer coisa que abomino, mas ponho na cabeça que devo fazer,quando eu fico puta e engulo a raiva, quando eu tento passar a linha do que eu quero, do que eu posso ou do que eu não posso, ele se manifesta. Impiedosamente. Através de horríveis enxaquecas, que são dores de cabeças que te deixam semi-cega, foto-sensível, incapaz de ouvir qualquer som, e com a sensação de ter comido um panelão de feijoada estragada e bebido veja multi-uso em cima. Um envenenamento.

Blá
De novo. Que merda.

Mineirinhos
Viciei no Clube da Esquina. Um girassol da cor do seu cabelo é a música mais bonita do mundo.Repito e repito e repito e canto bradando e suspirando com o peito em fúria, cheia de febre boa no congestionamento da manhã.

Depois do vendaval
Passei a tarde em treinamento para trabalhar na fábrica de salsichas. Lá pelas quatro meu desespero era tão grande que tive vontade de abrir a porta e sair correndo descabelada pelo caminho. Pela primeira vez eu não fiz isso. O que, de uma certa forma foi bom. Esperei, pensei, engoli o choro, continuei ali, fazendo o que esperavam de mim. Depois fui pra rua encontrar a amiga na padaria e pensar sobre as minhas reais opções de trabalho a essa altura do campeonato. Resistiré, pensei, até quando eu tiver encontrado algo melhor. Hora de lançar mão de influências (poucas) e currículos (extensos, variados e um pouco universitários demais). O que eu queria mesmo é escrever. Escrever não enche barriga e tralálá... mas um lugarzinho numa revista, num jornal, mesmo que burocrático e trabalhadeiro, me deixaria feliz agora. E/ou mais alunos meus, sem a dor nos ouvidos do repeteco linguístico lá da Swift onde eu estava até agora.
Boa, mudança, though, me senti mais adulta, menos menina mimada que eu sempre fui. Promessa do dia: segurar a barra até onde der e efetivamente procurar soluções. Por que embaixo da cama é confortável e quentinho mas também é pequeno e aborrecido e dá muito mais trabalho sair de lá do que de um emprego meia boca...
Já disseram meus amigos, se trabalho fosse bom não chamava trabalho. Mas também não precisava ser horrível como uma enxaqueca.
Well, nada que um bom banho, sopinha e Cartas de Caio F. não curem.

A vida não é adiável
Amor, mais uma vez essa palavra
É amor. É um amor enorme o que eu sinto. Sem educações ou polidez. Esta foi uma noite boa, o começo de um dia bom. Vocês, as pessoas mais importantes da minha vida, de alguma forma me devolveram exatamente toda a importância que vocês têm pra mim. E não foi bondade nem tolerância nem nada dessas coisas que a gente põe no lugar do puro amor quando ele não é possível. Foi tão bonito. Eu me senti inteira de novo, e , pela primeira vez em mais de ano, não estou mentindo, não estou fingindo que tudo está bem. Não, dessa vez é verdade, e uma verdade tão bela que quase me parte em dois: nós ainda estamos aqui. A vida continua, ela é longa, e nós ainda estamos aqui. Por que foi possível crescer, foi possível conversar, foi possível ver nos olhos de cada um de nós aquela centelha de reconhecimento que nos fez (e nos faz, que grande surpresa) restar ancorados nos peitos uns dos outros.
Esta declaração é para Paula, Mateus, Guilherme e Andreza (sim, você também), e para mim mesma, por tudo que pôde acontecer hoje, tanto tempo depois.
Eu estou feliz.