|
449 anos de maluquice paulista comemorados num sábado de dar dó. Está frio e cinza e garoento. Eu estou aqui, ouvindo o Clube da Esquina e lendo cartas de Caio F. a pensar no sufoco que é habitar esta cidade sem cabimento. Eu queria um raio de sol e queria também que fosse possível a dor não existir para ninguém. Mas sem dor, dizem, não há prazer e descobertas. Ontem também falamos dessa aflição que as pessoas tem de estar sozinhas, de flanar, de ir ao cinema sem companhia. Por que será que temos tanto isso? Ando descobrindo que ter uma vida independente dos outros é muito bom. Ontem à tarde estava presa em casa por causa do rodízio municipal, assistindo à TV, quando R. me ligou e me mostrou o caminho da luz: sair de casa SEM carro. Eu quase nunca faço isso, e no entanto acho muito bom poder olhar para as caras das pessoas no metrô, para os prédios, para a vida na rua da cidade. Pois nos encontramos para uma cerveja na calçada, com direito à defumação de churrasqueira e codornas que nosso outro amigo comeu. Depois caiu uma chuva imensa e aquele lugar ficou tão bonito que parecia que ia zarpar, a rua vazia de gente e cheia de água, os policiais espremidos no toldo da banca de jornal, e umas bandeiras enormes que tremulavam e fazíam barulho de trovão. Neon vermelho por todo o lado, e a cara da gente brilhando no asfalto. Depois foi um singing in the rain de guarda-chuvas em punho em direção ao restaurante japonês. Entupidos de sushi e cerveja, nos lembramos de todas as pessoas de quem tínhamos saudades.Saí de lá bêbada como uma sirigaita, e o metrô também estava lindo, palácio da lua, ecos por todos os lados e as escadas rolantes que cantavam. Foi uma noite boa. E dentro do nosso minúsculo campo de manobra, foi uma noite muito próxima da liberdade. O mar foi ótimo amante e eu estou feliz agora. Arranjei um emprego. Ele fez um balanço dos últimos dez anos. Aí eu resolvi fazer o meu, esta pequena história da nossa geração de moleques trintões. Lá vai: Dez anos de vida Mole 1992 cervejas política lady escorpião A.mole cara-pintada, seguindo a passeata para encontrar o namorado errado na casa dele do outro lado da paulista. Ele criava uma lady escorpião no jardim do apartamento. Carreguei uma bandeira por cinco minutos, larguei no chão, peguei o metrô. O amor mais importante que o destino da nação. Ódio de Alegria, Alegria pela décima vez no carro de som, anos rebeldes na TV, eu era gótica tardia, usava um chapéu e detestava Nirvana. Paixão excruciante pelo professor de redação, primeiro porre, primeira transa. Na minha escola tosca de classe média alta não tinha grêmio, não deixavam. Eu lia Baudelaire, história da filosofia, e usava maquiagem para parecer mais velha. 1993 Roberto Carlos com cerveja Faculdade de Letras. O amor me abandonou, mas eu não o abandonaria por mais dois anos. Uma escola de mulheres, bebíamos cerveja no centro acadêmico as dez da manhã cantando todas as músicas do rei, que saíam do livrinho de banca de jornal que a Samantha carregava na bolsa. Nunca mais vi a Samantha. Um namorado novo que tinha um Karman Guia branco sem chão do lado do passageiro, eu olhava a estrada passando no meio da tempestade lá fora e escrevia poemas ruins, trabalhando como revisora em lugarezinhos de quinta. 1994 greve cerveja e tequila Greve na USP, abandonei a faculdade de letras por que não queria ser professorinha. Cursinho, escolha bizarra, administração de empresas. Eu usava as roupas da minha mãe. 1995 Lager, faculdade de novo, Londres. Fundação Getúlio Vargas. Dez desimportantes namorados e um amor que finalmente morreu. Cheguei na escola, vi uma menina, convidei ela pra ir a Londres comigo, primeira viagem pelo mundo, e ela aceitou. Melhor amiga até hoje, com ela eu brigo e desbrigo como se estivéssemos casadas há vinte anos. E o professor, aquele que me deu a idéia de mudar de novo e procurar o que eu queria ser e que não era nada daquilo que eu era. 1996 cerveja cursinho carpenters droguinhas Fui parar na psicóloga. Tomei coragem, desisti de novo. Então, no meio daquelas hordas de pessoas horríveis lá no Anglo, encontrei ELE. Dei uma fita dos Carpenters de presente para ELE, que entendeu e ficou meu amigo e me ensinou que não existe essa de saber dançar, é só balançar os braços. Com ele eu aprendi e a me divertir, aposentei as roupas pretas e descobri as pessoas que eu mais amo na minha vida. Fomos viajar juntos, fizemos mandala humana, brigamos no caminho da Ilha do Governador, casamos, descasamos, fomos a festas, amanhecemos na rua dias e dias seguidos. Passamos juntos no vestibular. E não nos abandonamos nunca. 1997 cerveja, caipirinha e gim tônica, etc. etc. etc. Toda a faculdade é tosca mas aquela eu decidi fazer até o final. Descobertas de paixões erradas, Mateus e o lado negro da força, G., que depois virou Herberto e já estreou na minha vida me doendo. A terrível festa de Halloween, o fim de ano no telhado olhando três pipas que se separavam cheias de rancor no céu azul. Não, eu não me joguei, apesar da vontade. Banana procêis, eu vou para a Bahia virar luz. E escrevi um livro. Nunca publicado, evidentemente, mas muito lido pelos amigos. Chamava Píer. 1998 Anarco Barbies Uma nova mulher. G. me encontrou no cinema e fomos felizes por uns anos. Eu era a namorada que queria casar e ter filhos. Mais tarde G. ficaria aterrorizado, uma longa história. Denise meu amor e a nossa banda punk que ensaiou três vezes e teve dois nomes. Sete Belo, Anarco Barbies, e cantávamos Bob Morreu, e Die Lady Di, composições próprias e talentosas. Saí de casa, fui morar numa república de gente que eu não conhecia, pilhas de poeira, louça suja, chovia dentro da casa velha de mais de sessenta anos. E eventualmente eu perdia a capacidade de cruzar as pernas. Cãimbras de tanto rir, uma festa no banheiro enorme, cheiro de peixe na porta toda terça, que era dia de feira ali do lado. 1999 Dias e dias sem dormir. Trabalhos meia boca, dinheirinho curto e ajuda do papai. O casal de casais que não se largavam. E eles conversavam sobre fontes e letrinhas e designs e eu começava com as minhas dores. Casa nova só pra mim, BNH cheio de árvores, gatos. Ano novo em Campos do Jordão, tempestade, litros de vódega, jacuzzi com champanhe e sair da cidade minutos antes do desabamento. 2000 Eu queria ficar aqui, aqui mesmo. Consegui comprar um apartamento. E ele vazava, o esgoto transbordava, mas era meu. Aprendendo a ser psicóloga, odiava gente que falava de sexo e parecia que nunca tinha feito. Os anos da festa acabavam, e eu sabia disso. Uma viagem para a Europa, um sonho de outra pessoa e como é que eu poderia ter dito não? No entanto só me tocou a placa em frente a casa da Camille Claudel, Quai de Bourbon 19 bis, que dizia: "Il ya toujours quelque chose d´absent qui me tourment". 2001 O fim, o recomeço, o fim, o recomeço Continuava trabalhando pouco e ganhando mau. Me despedi do Homem que Seria Pai dos Meus Filhos. Me arrependi depois, mas ele se vingaria. E eu soube me apaixonar por alguém que não achava que eu devia ser um tiquinho mais parecida com a Fernada Lima. Formatura. Oradora da turma. Uma garrafa inteira de champanhe antes de entrar para fazer o discurso. Chorava, chorava, e depois da escola eu nunca fui a mesma. 2002 Caipirinha com Prozac O pior ano da minha vida, o pai dos meus filhos que nunca foram voltou para uma vingança. Desempregada, sem escola, sem mestrado, eu podia ira para Maputo, Botucatu ou Papua Nova Guiné, não faria diferença. Eu não tinha nada, tão de repente. E o que eu tinha não parecia bom. Vida em paralelo. Nesse ano eu fiz um filme, voltei para ver outras pessoas, abri um consultório que só me deu aflição, virei professora de inglês mais uma vez, as voltas que a vida dá, conheci Gim Toness num boteco, e decretei feriado no começo de dezembro, quando achei que finalmente eu ia pirar. E fui de novo pra Bahia, virar luz. E transar com o mar. Dois dias de atividades ininterruptas sem tempo para pensar. E esse barulho de TV fora do ar na minha cabeça. Coisa de quem dorme pouco e é religiosamente acordada por caminhões de concreto toda manhã. Ontem foi a aula que eu dei às sete e meia, dentista, entrevista e dinâmica de grupo numa escola, com direito a todos os atores constrangedores típicos dessas situações, edição de filme, edição de som, cachorro lambão, beijo na boca, molho de tomate espatifado na pia, macarrão de quinta, sono, e eu, no final de tudo isso, dando ocupado. Hoje também não me sobrou tempo nenhum para flanar. Tive minha primeira aula de francês. Dei aulas, esperei pacientes que não vieram e me dei conta do alívio de me livrar daquele consultório. E agora estou aqui, cozinhando, ouvindo Ira! enquanto lavo a louça e me lembrando terna dos idos de 86, quando eu era uma garotinha e havia uma banda de meninos fofos que ensaiavam no salão de ginástica (!) do meu prédio. Eles tocavam Feliz Aniversário e era tão tosco que minha mãe saía pra gritar na janela, justo ela que não é nem um pouco tomateira. O que me irrita nesses dias é que eu nem sei onde estou, nem sou capaz de um pensamento mais profundo do que um pires. É como se eu perdesse algumas horas da minha vida de gente pra me tornar um semi-ser. O dia acabou dentro da água azul e quente da piscina aqui atrás. Lá onde os meus ouvidos ficam cheios de barulhos moucos e eu me sinto um tiquinho mais livre. Mas eu queria o mar, aqui atrás é sucedâneo, eu queria o verdadeiro. Passei o dia de hoje editando filme. Cabeça dói, olho dói, ouvido dói. É muita gente falando, todas as pessoas do documentário mais nós três desesperados para cortar qualquer coisa cortável por que nossa obrinha ficou com quase uma hora e meia e nem Jó vai ter saco de assistir. Conseguimos cortar meia hora, já é alguma coisa, e toda a narrativa ficou mais interessante. Tem aquelas pessoas lindas falando, mas dá uma crise louca de saber se aquilo vai interessar para mais alguém além de nós. No fim, eu sei que tem gente que vai gostar, gente que vai detestar e gente que vai dormir e eu odeio as que vão dormir com todas as forças do meu coração por que a única coisa que eu não quero é indiferença. Tem coisas bonitas nesse filme. Brigas a serem brigadas, gente bravíssima e sertaneja e de um coração enorme. É isso que eu quero que as pessoas vejam, é isso que a gente está tentando dizer. E tome negociação, por que o que um quer cortar o outro acha bom e o que o outro quer cortar não pode ser cortado por que é importante para ligar uma cena à outra. A maioria das pessoas que eu conheço acha que não é difícil fazer um filme. Eu também achava. Agora aprendi (e do jeito mais difícil) que não é nada fácil. É só com a aceitação de que há um penhasco enorme entre as pessoas que se pode começar uma travessia. Estou quieta, alguma coisa se apronta para sair de mim, estou prenhe de palavras entupidas, descompostas. São Jorge me olha da parede cheio de coragem e aqui em volta há sinais de preparação. Está tudo limpo e arrumado, tem retratos nas estantes, comida na geladeira, os óculos nos meus olhos. Mas eu não estou pronta. Vou me aprontando mas não estou pronta. Vou criando pele por sobre a minha carne macia, vou ficando mais capaz, sei de coisas que eu não sabia. Coloquei as malas no chão, estou chegando, mas ainda não. Dia desses eu pulo, um dos pés lá atrás já faz menção de tomar impulso, e então eu vou começar a contar uma história. A história de alguém que sempre acreditou que seria esmagada pelas lidas do mundo real. E que não foi. |