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Dirigindo de madrugada, voltando de encontrar um amigo querido na Granja Viana, eu olhava a lua no meio do céu daquele mato que insiste em existir nas bordas de São Paulo e ouvia a voz do Jards Macalé a cantar é impossível levar um barco sem temporais e suportar a vida como um momento além do cais.A estrada ecoava e eu soube, assim, num estalo, que eu estava mais simples, sabendo mais coisas, mais crescida um pouco.Todos nós, eu acho. E teve a cerveja, o café, a conversa tão boa de novo e a soneca na rede debaixo do reflexo da luz prateada na penumbra das árvores do quintal, que agora estão cheias por que é verão. Pois é...muita coisa se passou, meu amigo. Esses últimos seis meses foram anos nas vidas de todos nós. Foi bom constatar algumas curas e perceber que amigos importantes se cultivam. A vida se acerta nos jeitos incertos dela. E fora isso hoje foi um dia bem comum de trabalho e almoço na casa da outra amiga e de comprar um lindo pufe azul que agora ocupa um canto aqui. E eu fiquei muito feliz com tudo isso, feliz de uma felicidade translúcida. "Ontem, na padaria, Paula me disse que o problema é a falta de tempo para narrar. Por que a gente não narra, a gente descreve. E descrição é diferente de narração por que é análoga a uma fala vazia, não elabora, não imprime historicidade ao que se está falando. Poderia ser qualquer um a dizer, história da vida privada que não chega a ser história da própria vida, mas é descritiva, hoje eu fiz/senti/pensei tal e tal coisa. Pouquíssima abstração, pouquíssima construção para além dos tijolinhos. Por que uma construção se faz com muito mais do que tijolos e concreto, tem o desejo da cor que se coloca na parede para contar a história de quem vive ali, tem os quadros, os móveis, tem a razão pela qual alguém herda uma cama e a mantém no quarto mesmo tendo dinheiro para comprar uma nova. A descrição aprisiona, a narrativa liberta, põe em perspectiva, deixa a barriga cheia. A descrição pura e simples esvazia. Na narração há também descrição, mas aí ela serve ao propósito de conduzir a um outro pensamento que sai do corpo concreto das coisas pra depois voltar a habitá-lo de um jeito diferente. Na narração, a descrição é como a iluminação no cinema, dá o clima, sem ela não poderíamos ver o que há. Mas um filme é muito mais do que a luz específica impressa sobre a película." Essa é a trilha sonora da tarde. Há uma construção em frente ao meu prédio. Eles tem me acordado religiosamente às oito da manhã há quase um ano. Mas hoje o barulho deles pareceu música aos meus ouvidos. Alguma perua ensadecida resolveu que era preciso trocar o revestimento do chão do prédio, e há um homem-com-britadeira destruindo a ardósia do jardim desde de manhã. Nervos à flor da pele, eu entupi os ouvidos com os fones do Disc Man e tento agora ouvir concertos de Brandenburgo para me acalmar. Não deu certo, parece um experimento de música contemporânea e me dá vontade de gritar, entrar pra guerrilha urbana, virar franco atiradora. Imaginando há horas maneiras sórdidas de matar o homem-com-britadeira. O chão do apartamento vibra. As paredes também. É como viver sobre a falha de San Andreas em plena atividade. E eu estava aqui apenas tentando pensar, fazendo anotações para um projeto de mestrado. Essa cidade acaba com qualquer possibilidade de filosofia. Como ter um rádio no carro (a primeira vez em cinco anos) e sair pela cidade cantando em japonês. Walter Benjamin: Tradução e melancolia, de Susana Kampff Lages, uma tese de doutorado que é (surpresa, surpresa!) muito boa de ler. Pela primeira vez na vida eu realmente fiquei FELIZ numa entrevista de emprego. E não bati o carro. O que é evidentemente um sinal de que minhas escolhas estão um pouco mais acertadas. Alguém aí sabe o nome da primeira música que ela canta no Ensaio de 1973, ainda sem violão? Uma que diz algo como : Por que desceste ao meu porão sombrio, quando eu estava bem morta de sono? Esmaltes, escovas, e a moça arranca pêlos do meu rosto. Sobrancelhas arqueadas, elegância, perfumes no salão meio brega onde eu corto os cabelos há anos. A dona do salão é uma evangélica fervorosa que se veste como uma drag queen, plataformas gigantes e saias minúsculas, plástica no nariz e nas orelhas, tintura loira e promoções de banhos de sol artificial para deixar as pessoas com cara de "bem-sucedidas", como ela diz. Pois eu olho para frente e noto que a sala de depilação havia sido redecorada e lá tinha uma pintura enorme, contemporâneo de feira da república, uns rabiscos. E por cima estava escrito, naquela letra cursiva de artista angustiado: A Beleza Aproxima de Deus. Este mesmo programa. Os olhos enormes, a câmera fechada no rosto envergonhado de Nara, a boca de onde saíam os sons mais bonitos do mundo. Mas naquele tempo eu estava triste de uma tristeza que eu achava não teria cura, era um desvairio de perda de alguém que já tinha ido embora há muito e que foi importante a ponto de me deixar esfalfada no chão da casa pela segunda vez. E eu fiquei cega e perdida de uma paixão doente que fez tudo em volta cair. E eu não comi durante um mês. E eu chorava e chorava e chorava, perdida de amor fácil pelos que já morreram. E eu esperava. Esperava uma volta que não houve mas que eu ainda acreditava poderia haver. E eu tinha perdido muitas coisas mais, a minha vida protegida de adolescente, as promessas de futuro, os filhos que eu não tive. E eu fiquei olhando os barcos passando, pensando que a vida seria aquele momento exato em que o marinheiro embarcaria de novo no meu corpo e então zarparíamos pro nosso destino de felicidade. Todo o resto parecia mentira, engano, desencontro, relógios errados, mapas torcidos, descaminhos. Demorou muito tempo para eu perceber que também o descaminho é um caminho. Que barcos que vão às vezes não voltam. E que a volta que a gente sonha talvez não devesse sequer ser desejada. Hoje eu tenho só uma cicatriz enorme. E todo dia eu fico feliz por ela ser só uma. Por eu ter tido como fazer outras reestréias, por eu ter podido sobreviver. Naquele tempo eu achava que não conseguiria. Foi preciso entrar no mar e ver de novo beleza na vida. Hoje eu nem sei onde ele está, não falo mais, e quando encontro não sei bem o por que de tudo aquilo que se perdeu num romance de memória. Hoje é terra firme e os passos que eu vou aprendendo a dar. E de vez enquando eu choro, por razões minhas e por razões de fora de mim, mas eu também sei rir de novo. Demorou, mas eu consegui. E a Nara ali, a me lembrar desse ano de tormenta brava que passou, cantando músicas de amor e músicas de adeus. Adeus, Adeus, Adeus. E agora eu posso dizer: bem vindo aquele que vem. Amém. ... Ai, valha-me deus a dor de olhar por esta janela e ver a água que cairá sobre minha cabeça... Irei à quitanda, irei à casa de ferragens, martelarei pregos e farei cacetinhos a tarde toda enquanto ao lado resta sobre a mesa o livro de filosofia que me ajudará a atravessar este estranho período de silêncio em que me pus. Não, não posso abrir minha boca. Não articulo palavras, estou mesmo telegráfica. Pimentas, Farinhas, Sopas carnudas. Letras. Letras. Letras. Chinelas. Discos arranhados, eles ainda existem mas são expulsos do recinto com ditames de perfeição. Blá. Blá. Blá. Sábado foi overdose de feijoada, caipirinha, sorvete, cerveja, dicionário, promessa de aulas de surf, lavar louça, picar couve, cigarros e pimentas por todos os lados. O telefone tocou tarde da noite e era um certo repórter policial que tinha dormido e comido pizza e ficado sozinho demais no maior prédio da américa latina e queria sair. Então fomos à Cave dos Mofos Eternos, que é agradável, mas é mofada, e eu tentava me comunicar mas não conseguia muito, bebi demais e fiquei olhando para cara do meu querido repórter e de vez em quando falava algo sobre estudar o tempo, filosofias, mestrados, esses babados desinteressantes que me interessam. Eu estava mesmo era dando ocupado. Tu tu tu tu. Voltei para casa e desabei na cama para acordar cedo hoje e continuar solenemente olhando o mundo de dentro da bolha. Casa da mãe, comida da mãe, lembrancinhas de infância e essa coisa que me dá, uma vontade de ser criança de novo e não ter que me chacoalhar por nada nesse mundo. Agora pouco eram duas velas e a Nina Simone na vitrola, no fim desse dia de chuva. E ela cantava "He´s got the world in his hands" e eu lembrava de todas as pessoas na minha vida que tinham sido o He da música. Essa mulher me corta o coração. E tem gente triste por coisas realmente tristes por aí. Enquanto isso eu bato pregos e penduro quadros para esquecer a pontada fininha no meio do peito. |