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Ontem deu medo da chuva, eu não saí. E era vontade de ficar sozinha, quieta, e dormir muito e repousado. Consegui. E hoje tem feijoada na casa da mulher superior, e filmes pra devolver e a vida vai mansinha. Como diz o meu amigo americano, tutto bom! Fazia tempo que eu não lia o estadão. Hoje fui ler e fiquei feliz. Algo no tom do jornal me deu uma esperancinha de que o país está se movendo para outro lado. E é delicioso ver os cocôs do ministério da educação do FHCido falando que o provão era o máximo e finalmente tendo que ouvir que NÃO, NÃO ERA. Vamos ver se o Tio Cristovam põe uma proposta melhor no lugar dele. E essa mania dos tucanos de desconsiderar o interlocutor sempre me deixou fula, mas com eles por baixo, fica engraçado. Parecem a Carmem Mayrink Veiga: perderam a majestadr mas não param de falar besteira. Fiz pão. E modéstia a parte, eu sei fazer pão. Eu estou derrentendo no calor amazônico da sauna à vapor tóxico que virou Sumpaulo. E estou com a cabeça coberta de cheddar cremoso.S.O.S. Preciso do meu disco do Abba agora. Lucía Y el Sexo, com uma barra de chocolate ao lado. E Benvindos, que tem a melhor comemoração de um gol dos últimos tempos. E a passeata do queremos carne e crianças brincando de Pinochet. Nove e meia da manhã. Trinta graus à sombra. Uma hora e meia de trabalho bem cedo, talvez alunos novos, um alívio de ter feito escolhas e afinal, eu vou me livrando. Resolvi também estudar o tempo. Por que é ele o conceito filosófico mais sentido na carne da gente, mais onipresente, mais cruel e mais belo também. Qualquer um pode viver sem saber da própria razão, mas nunca se pode ignorar o próprio tempo, as estações que passam, a memória que constrói um filme que não é o filme exato daquilo que se viveu e para sempre se perdeu. Pela primeira vez em mais de ano, eu tive coragem de entrar na biblioteca. E saí de lá feliz, três livros nas mãos, procurando guias para a minha procura. Estava assistindo as notícias, e chorei. Não era outra chacina, não era aumento de ônibus, não era gente passando fome. Era uma coisa muito mais bobinha, era uma pequena tragédia: o repórter dizia que o Circo Garcia tinha fechado, afogado em dívidas que chegavam a um milhão de reais. Uma das minhas memórias de infância mais tenras é do dia em que eu fui no Garcia e vi elefantes pela primeira vez, com o meu pai, ainda moço e de barba preta, e mais uma penca de crianças filhas de amigos dele. A gente sentado lá, comendo a pipoca obrigatória, e entram aqueles bichos enormes, fazem um círculo, e pulam, e sobem em cadeiras, e de repente eles começam a fazer cocô. Bolas enormes. Eu, do alto dos meus oito anos, fiquei fascinada com o tamanho daquilo, e com o homem que ia atrás dos elefantes, com uma pá, recolhendo tudo para que o picadeiro continuasse limpinho. Depois tinha os trapezistas. Naquela época eu ainda estudava em colégio de freira e sabia rezar, e enquanto eles voavam eu dizia qualquer prece por que tinha medo que eles caíssem no chão. E os palhaços, que me davam esse sentimento estranho que a gente tem quando ri do ridículo dos outros, essa alegria ingênua e melancólica, essa coisa meio sem lugar. O circo está morrendo, o olhar desconsolado dos homens que trabalhavam ali, os últimos nômades, me dizia. Se um dia eu tiver um filho, ele provavelmente não vai sentir o cheiro quente da bosta de elefante, não vai ver os leões, não vai conhecer trapezistas, não vai comer pipoca numa tarde de julho debaixo daquela lona. E eu não vou fazer como o meu pai, que enfiava oito crianças em uma Belina verde garrafa e levava a gente pra ser feliz. Dorme em paz, Circo Garcia. Agora eu tenho um jardim. Que eu plantei hoje, com as minhas próprias mãos. No Rio, vendem amendoim e queijo de coalho na praia. Em São Paulo, vendem no congestionamento. Outro dia alguém escreveu aqui que esse blog era "uma exposição nua e crua da vida privada, e que falta esforço pra virar literatura". Meu filho, isso aqui é história da carochinha. É má literatura, mas é literatura. Personagens mais ou menos fictícios, fofices, melancolias de menina. Por que (e acreditem, agora é sem julgamento) NOVELA MEXICANA é o que eu tenho visto por aí, viu... Tá me lembrando do tempo em que eu assistia aos Ricos Também Choram, no SBT, tomando café de tarde com a minha mãezinha. Parei, acho que vou voltar pra caneta e pro papel. E gente por aí me lembrou que o rio não é só a maravilha. Tem o pra lá da linha vermelha, que deus permita, eu queria que se acabasse e virasse uma coisa melhor. Eu queria a revolução da beleza. E como diria tom jobim, através do Ronaldo "eu só vou acreditar no socialismo quando todos puderem morar em ipanema". Se alguém ainda está em dúvida, sim, eu virei hippie. Era Copacabana, era quase meia noite, gente de braços dados e flores nas mãos e garrafas de champanhe e adeus ano velho feliz ano novo descendo em passeata em direção à praia, e alguns gritavam Lula, e alguns eram velhos de cadeiras de rodas olhando tudo aquilo talvez pela última vez, e outros eram novos, e tinha fogos de artifício, e tinha essa alegria & esperança meio jecas de ano novo e tinha uns sorrisos insuspeitos nas caras das pessoas, e procissões e cervejas geladas e hare krishnas cantando e estouros espoucados e era um fim. Era de novo o primeiro dia, era de novo uma nesga de porvir, era tudo isso e acabou em bife com batatas fritas, gentilezas do garçom e uma carona para Santa Tereza no amanhecer mais lindo da cidade mais linda do universo. Mas o ano havia acabado horas antes, em outra praia tão famosa quanto, posto 9 de Ipanema, e era por do sol. O calor era muito e eu não comia havia tempo. Resolvi entrar no mar. E o mar me beijou. E eu fui tão feliz que foi uma epifania sem palavras. Eu estava sozinha. Fiquei calma e repousada e soube que tinha uma saída. Soube que podia ir para qualquer lugar, mesmo que na terra firme fosse tudo mais difícil. E soube também que um dia, eu seria o mar. |