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Feliz ano novo a todos, e que na hora da virada todos gritem um SAI EXU bem grande, pelo bem da minha, da sua, da nossa humanidade em 2003. Nessas horas eu sou bem supersticiosa. Amanhã vou viajar bem cedo, e toda a comida da casa acabou. Está um pouco escuro, um pouco frio e a única coisa que resta na geladeira são algumas cebolas, pimentas e limões. E uma enorme e geladíssima garrafa de champanhe, que eu vou saborear lentamente enquanto vejo as fotos do paraíso. Pediremos uma pizza. Mas isso ainda vai demorar muito. Comi a última lata de milho. A casa já está cheia de ecos, pressentindo o abandono, as gatas ronronam diferente e P. queria ir a um Karaokê chamado Flyhair, pra cantar Beatles. Estou entre uma cidade e outra. A alma sempre decola antes que o corpo. Então estava escuro. E era um bar-de-rock-com-paredes-quadriculadas e eu fui parar lá num dia depois do Natal, depois de coisas boas que reviveram e depois de perceber que talvez eu quisesse acreditar em possibilidades de amor um pouco estranhas. Eu estava lá num lugar que, em teoria, eu queria estar, e briguei tanto, e me debati tanto, e neguei tanto e abandonei tantas pessoas que não encaixavam ali. Eu sentei, tomei um décimo gole de cerveja, e o cigarro pra me fazer segura e todas as pessoas-importantes-da-cena-que-eu-conhecia-e-que-eram-legais estavam lá. E bateu. Bateu como ácido ruim, perdoem-me a pieguisse da comparação. Eles eram chatos. Eles eram feios. Eles tinham estudado em colégios bagaceira da Vila Mariana. Eles tinham passado a adolescência enfurnados num quarto aprendendo a tocar guitarra e a imitar algum inglês grunhindo de depressão. Estavam todos lá, enquanto eu, glamurosa de sono, olhava do canto aquele lugar em que eu briguei tanto para estar. Por que não fazia mais sentido. O problema é que eu não sei muito bem o que faz sentido agora, mas aquilo não fazia sentido. Caipirinha ruim, espinhas na cara, costeletas e a fake coolness that never was. Isso não faz sentido algum. E eu dizia umas horas antes que eu estava mesmo procurando uma pessoa simples. Lá não tinha gente simples, tinha gente simplória travestida de star, e Vera Loyola que me perdoe, isso é a pior coisa que pode haver numa noite de quinta feira ou em qualquer noite. Dá licença que eu quero mesmo é tomar pastis a beira mar e sonhar com uma fazenda auto-sustetável, e aquelas pessoas sequer sabem o que é pastis. Será que eu tô véia, tô cansada? Comi macarrão com pesto, não consigo digerir, vi um filme ruim, não consigo digerir e aquele lugar imitando um porãozinho preto, o playground undergroung, puta que o pariu eu não vou mesmo digerir. Me soa patético. Quero viver pelada, abaixo as camisetas de banda. Abaixo sobretudo as pessoas que fazem listas. Elas sempre existiram, mas depois do Alta Fidelidade se sentem no direito de serem gente. Sai demônio. É, tô véia, tô cansada... A história toda é: eu quero um homenzinho fofo e estranho que odeia festas, eu gosto de um salto alto, eu gosto até de uma sala da vó pintada de preto tocando Clash de vez em quando. Espero que não seja tarde demais pra balancear tudo isso e o amor que eu sinto por algumas pessoas que estavam lá comigo, no porãozinho, felizes, contentes, completamente no seu elemento. Mas eu não acredito mais em being cool, em gente que é, gente que não é, eu não acredito mais no clube, nos membros do clube, nos excluídos do clube. Eu sempre fui um E.T em todos os clubes. E estou a me sentir terrivelmente confortável com isso, dado que todos os clubes, pelo menos do lado de cá do atlântico, do lado de cá da cerca, são patéticos. Eu acho que me esforçaria para ser amiguinha do David Bowie, mas de resto, tsk tsk, me dá soninho e vontade de rir e eu fico me divertindo de olhar as caras embuídas dos semi adolescentes que atravessam a sala para pular ao som de alguma música que eu ouvi pela primeira vez há dez anos. Sabe que descobrir essas coisas me dá uma felicidade mórbida e uma estranha alegria de mim mesma? Pois é, creme anti-rugas afeta o cérebro e dá nesse mau humor saudável que eu estou sentido agora. Não é mau humor. É coragem. Coragem de andar pra frente. De ouvir Kleiton e Kledir, de gostar de cozinhar, de querer casar se o par valer a pena. É coragem de ser simples. O que não é mesmo uma coisa muito simples... Ganhei muitos presentes. Me senti como a criança da família, cercada de papéis brilhantes, sentada no chão, lendo a primeira parte de um livro sobre cozinha, ao lado da árvore de Natal. E depois da festa um outro presente, que num mundo mais simples seria sempre assim: bom, cheio de amor, especial, cheiro bom, carinho, respeito. E sobretudo liberdade. Por que a gente precisa é da paciência que a liberdade exige, do desprendimento na hora certa, de tudo que acaba na imagem de um homem finalmente abrindo os braços, feliz, embaixo da chuva que começa a cair, em plena manhã de Natal. Estar perto do ano novo, ver a amiga que estava muito triste um pouco melhor, comprar uma disco da Libertad Lamarque para a avó e um filme do Tati para a mãe, figos e nozes, ver as portas das lojas baixando mais cedo nas ruas, ouvir garrafas de champanhe estourando, ligar pra alguns amores da minha vida para desejar boas festas como quem quer dizer outra coisa, e outra coisa é você é tão importante e que bom que mais um ano passou e nós ainda aqui, a sofrer e a sorrir, o momento piegas, o presente surpresa, o abraço sincero, o pai fofo olhando para o livro de ficção cintífica que acabou de desembrulhar, o vinho, as amigas judias da minha Nona que vão ceiar lá em casa, o natal mais ecumênico do mundo, e a ceia que é as nove e não a meia noite, e Giulieta Masina que toca agora na vitrola por que eu também sou filha de deus e me dei um presente e resolvi me amar um pouco e me tratar bem sobre todas as coisas. Feliz Natal a todos os que eu gosto de verdade, aos que resolveram na vida compartilhar pedaços de tempo comigo, aos meus amigos. E depois ainda fomos jogar. Esse jogo era bem mais difícil quando eu tinha doze anos. Depois da luta, fui ao cinema, assistir a um filme do Flávio Rangel, chamado Gimba, uma espécie de proto-Cidade de Deus, mostrando um pouco e meio liricamente como tudo começou. É do início dos anos 60. A trilha sonora era do Carlos Lyra, com Zé Ketti e mais alguém. Queria descobrir um disco. Tinha uns trechos instrumentais fantásticos e versões lindíssimas de O morro não tem vez e Feio não é bonito. A sala clara, os parentes sentados em volta da mesa mais feia do mundo, o tio, a tia, o cunhado da prima e as duas crianças gritonas que ele trouxe com ele, outros parentes inespecíficos, eu sentada e de um lado o primo de dez anos que assustador fala como um adulto de 40, do outro a mãe dele, que fala como uma criança de oito, e todos berram ao mesmo tempo por que nunca houve, nunca haverá e não há mesmo qualquer espécie de diálogo nesta família bizarra. O tio bebe. Por que este é o dia dele beber. Todo ano, tradicionalmente. E ele liga a câmera de vídeo que prova todas as injustiças do mundo (afinal ele tem uma câmera de 9.000 reais para filmar a família comendo, e eu, que faço filmes, não tenho nem sequer a possibilidade de sonhar com a maquininha). Ele registra em som e imagens digitais o passa o arroz por favor, mas está sobrando uma coxa de peru, mas e o Lula hein, e o Gil como ministro da cultura, ficaremos todos pretos. Todos fascistóides, falam mal de nordestinos, pretos, petistas, gays (mas só so afetados) e pelo menos três vezes me perguntam o que é isso no seu nariz, é sujeira, é? e eu sorrio exausta e digo não, é um piercing. Então, as rabanadas. O café. Duas horas que parecem setenta e duas dentro de um ônibus na Bélem-Brasília com um bêbe vomitando sentado ao meu lado. Então, subitamente, a troca de presentes. Que me deu nojo este ano. Por que ninguém gosta um do outro, ninguém presta atenção. Pois meu pai, natureba que não bebe, ganha uma garrafa de Black Label do sobrinho. Pelo segundo ano consecutivo. Eu ganho um pijama (pelo menos dessa vez ele é bonito e eu estou precisando). E uma calcinha. E um sabonete brega e vagabundo em forma de torta de chocolate. E um dinheirinho da madrinha, que é bem vindo, mas valha-me deus ela podia ter sido um pouco mais generosa. Cada um pega o seu pacote sem nem olhar. Exceto o tio bêbado, que está na frente da câmera, fazendo discursos desconexos em português, inglês e polonês, mostrando os presentes que ganhou e pastosamente deslindando elogios para cada membro da família. Ninguém olha pra ele, desfazem do homem sempre do mesmo jeito, por que ele é meio louco mesmo e tomou todas. Ele faz uma incursão no mundo do amor, ele tenta dizer como aquelas pessoas em volta são importantes. E, apesar da tentativa, é patético. Se eu roubasse essa fita, fazia um filme do Dogma e ganhava Cannes. Um libelo sobre a miséria humana, um filme sobre as pessoas mais chatas do mundo. A família é tão estranha que eles comemoram o Natal no dia errado, by the way. |