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Ontem vi um filho coletivo nascer. Bom, pelo menos a cabeça já saiu. Explico: fui ver o primeiro corte do documentário que eu e Lu fomos fazer no sertão e que o Jardel está editando. Rever a cara daquelas pessoas dentro da tela me deu uma coisa boa, uma epifaniazinha querida, uma vontade de suspirar por que elas estão lá, todas lutando e a gente aqui também, e um dia a gente foi para lá e parou para olhar e eles lá olharam também pra nós e pra nossa camerinha tosca, e de algum jeito estávamos todos a dizer alguma coisa. Apesar de ser um filme sobre políticas públicas, não foi isso que ficou mais importante na narrativa. Ficou importante mesmo é o fato de que as pessoas que são "auxiliadas", os "carentes", essas pessoas tem opiniões e vontades fortes e acham muitas coisas que acho que dá pra ver no nosso filme. Eu acho que mostrar isso é uma coisa importante. Tratar o outro como interlocutor e não como receptor de tudo o que se faz. Eu gosto de contar histórias e de ter histórias contadas para mim. E tem a Jandileusa, a Nita, a Silésia, e o prefeito, que fala numa língua tão enrolada que a gente estava pensando em pôr legenda... O filme tem que ficar pronto dia 13 de fevereiro. Enquanto isso eu vou pro Rio continuar a lavar a alma, inda mais agora que arranjei pouso grátis numa linda casa no alto da Gávea avec Arthur, meu amigo recifense cheiroso. O Zé Celso e o Franco Montoro (in memoriam) são, na verdade, a mesma pessoa. Este segundo dia e eu aqui me perguntando o sentido disso tudo. Ainda bem que vou embora de novo e tenho tanta gente para encontrar. A diferença é exatamente esta: quando eu estou iluminada eu sou capaz de ficar com dois amigos queridos, dentro de um carro na Vila Madalena, no meio do congestionamento da sexta feira buscando uma gota de cerveja para beber. E pra espantar o mau olhado, nós cantávamos A Casa, do Toquinho. E O Pato. E A Bailarina. Acho que todas as músicas dele tem esses nomes. Reencontrei um livro muito importante para mim, que foi roubado ou perdido numa das muitas mudanças de casa. Ovelhas Negras, do Caio Fernando Abreu. Não é a toa que eu reencontro Caio F. Nunca é a toa. Um trecho: " Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé- não sei se em mim, se numa coisa que eu chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando sempre. Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas". Yoavi, o americano israelense, eu, Patrícia e Jean Louis. Discutíamos política e brigávamos o tempo todo nas noites regadas a vinho e cozinha francesa no meio do paraíso perdido. Yoavi era businessman mas era também um menino bonito e sensível. Em Nova York, comprava pesto em lata, coisa que Jean Louis achava o cúmulo da perda do contato com as coisas reais da vida. Uma certa noite, J.L, falando inglês com sotaque francês fortíssimo, praticamente gritava: "Yo-a-bi, you musta diga rrole in the sande and put yourrr computerrr in! Do yoy vknow vthe differrrrce between a potato anzzz a tomato leaffff?" Eventualmente paramos de discutir essas coisas e começamos a contar as histórias das nossas vidas, a ler diários, e devagar, fomos todos nos apaixonando uns pelos outros. Na última noite em Moreré, eu vi do píer a lua cheia nascendo sobre o mar e chorei uma hora inteira, larga e sem palavras. Por que palavra nenhuma descreve aquilo que me alimentou pela boca, pelos olhos e pelas mãos espalmadas na madeira do atracadouro. Na noite seguinte, a última em Boipeba, não dormimos. Fomos até a casa de Angélica, a cozinheira maravilhosa do restaurante Paraiso. Sentamos na beirada da porta e comemos o acarajé que a vizinha preparava sentada no chão também, e a cerveja buscamos no boteco ao lado onde só entravam os pescadores e onde passamos uma parte da noite ficando bêbados com o auxílio de Emmanuel, assim com dois emes, o tecladista boêmio do local. Emocionou-se, Emmanuel, ao nos ver cantando em inglês, e nós viramos os vocalistas da banda dele. E ele tocava essa música que eu amo mas não sei nem de quem é, nem qual o nome e que começa assim: " I started a joke..." E no final, cinco da manhã, a gente precisava subir na lancha e foi mais uma despedida, a gente no quarto de Y., um abraço, e a tristeza dos nossos dedos mindinhos enlaçados por uns segundos além do abraço, um resquício de contato. E então fomos embora, para ainda outras despedidas. E para esta chegada, aqui, nesta vida de hoje que eu não vou mais viver, por que vou traçar um caminho muito diferente do que eu achava que iria. Eternidade é uma palavra que me intriga. Épica, grandiosa, inapreensível. Como quando eu aprendia inglês e me tocava a palavra forever por que era muito cheia de ecos. Não tem nada que dure para sempre e essa é a raiz de toda história e de toda saudade. Eu me lembro de quando eu descobri que o amor também doia e passai a dar flores para mim mesma. Minúsculos botões de rosa. Então eu sabia que em dois ou três dias eles iriam murchar. Era um ensaio. Um ensaio nas lidas do tempo. E me dava uma legria enorme ter aquelas flores, mas também uma nostalgia agônica a certeza de que eu as perderia. Eu ficava me perguntando se as minhas mãos eram patas brutas que não sabiam cuidar daquela vida, eu tentava soluções mágicas e milagrosas, eu tentava física, tentava química, tentava água e sombra. Não adiantava, as rosas morriam. Era assim simples: elas eram bonitas, eram minhas por um pedaço ínfimo e escapado do tempo, e depois morriam, budismo do coração. Naquela ilha, eu fechava os olhos e começava a sonhar. Tive todas as discussões que precisava ter gritei com quem precisava gritar e eram verdadeiros filmes dez horas por noite, e histórias que eu contava para mim mesma. Sonho a gente tem é pra ir se curando devagar, eu acho. Comme Gauguin. E os mares do sul. Naquele dia andamos mais de dez quilômetros na areia, sol à pino cortando a pele que já não era mais a mesma. Chegamos à vila de Boipeba, um lugar em que já é quase tarde demais. Guarda-sóis e mesas brancas estampadas de marcas de cerveja. Havia música de dor de corno no alto falante da praça. Homens mexiam comigo. E por falar em homens, aquele sol todo e o meu corpo que começava a amar a si mesmo me faziam querer beijos na boca e um amor grande. Então eu sonhava a noite toda com sexo. Sexo proibido com meu anfitrião estalajadeiro, 47 anos, que tinha uma mulher séria e chata que brigava com ele o tempo todo,saia para trabalhar na cidade vizinha e só voltava nos fins de semana. Ele me lembrava da alma do meu primeiro namorado e sua ânsia de fugir por um mundo grande demais. Sotaque, signo de peixes, cara de marinheiro marselhês e uma crença única na verdade da terra. Ele me emprestava comics em francês e fitas do Jacques Brel e eu tomava Pastis todo final de tarde enquanto ele contava histórias das ilhas Reunion e da Guiana Francesa e de shows dos Rolling Stones em Paris nos anos 70. Cheguei ontem à noite, depois de aviões e ônibus e balsas e amanhecer dentro de um barco sem dormir, o sol na cara, e eu deixando o lugar mais lindo do mundo para trás. Um sorriso, um homem me jogando um beijo da janelinha de uma kombi velha entupida de pessoas, a nuca do homem que eu olhava fixamente dentro do carro, antecipando saudades, o abraço finalmente terno, os dois beijos queridos no rosto, e lá onde tudo era proibido era mais uma vez o amor platônico que me salvava, e eu aprendia de novo a me encantar. Aqui, vésperas de natal e os carros na rua, congestionamento a uma da manhã, meu desacostume com isso, e o sofrimento dos sapatos depois de dez dias descalça na areia. Mudei de cor. Minha alma também mudou de cor. |