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E para encerrar, esta música linda, feita sob medida, cortesia do Ronaldo, que me mandou como presente de despedida: meu tempo de andar no mundo podia se acabar num beijo ou mesmo num olhar profundo onde eu desse um jeito de me renascer há tempo que meu peito espera impaciente, um novo amor há tempo que ele está vazio e a felicidade dele se afastou meu tempo de andar no mundo podia se acabar, podia que bom se minha nostalgia desaparecesse num amanhecer há tempo que eu guardei meu pranto queria, mas não sei chorar alguma coisa poderia terminar agora todo meu penar meu tempo de andar no mundo podia se acabar num samba que fosse feito num segundo mas dissesse tudo que eu tenho a dizer há tempo que eu não tiro um samba capaz de aliviar meu peito há tempo que ele nasce e morre no espaço breve que eu lhe faço ser Só volto no dia dezenove. Vou prum lugar onde se anda a pé e de barco e tem sol e não tem mais nada. Feliz Natal para todos. Depois de muito tempo, hoje eu fiquei Feliz, assim mesmo, com maíuscula. Antes do festival, caipirinha e bolinhos de bacalhau no Dona Felicidade com R. Depois os shows, Svetlana eu achei lindo mas acho que quem não era polaco, nem alemão um pouquinho, ou ex-gótico, não entendeu muito bem. O.A. a mesma coisa de sempre. Eu gosto de Senta a Pua, mas me intriga a ma-nei-ra-de-se-pa-rar-as-sí-la-bas que tem o moço que canta. E depois, Mulheres Negras, num legítimo momento só os quase trintões dançam (eu entre eles) e M. circulando puto com o discurso uspiano anti-imperialista entre as músicas. E eu lá, cagando de rir. Ex-namorado bêbado do bem veio abraçar e dizer que sentia nossa falta, minha e de R. e tudo virou comoção geral e uma coisa boa. Depois Lovely Ronaldo meter maid me fez cantar Roberto Carlos num celular pra ex-namorada que já tinha ido embora e a noite acabou com daqui pra frente tudo vai ser diferente e eu sentindo amor pelas pessoas a minha volta. Pronto. Já comecei a virar luz. Nada mais apropriado para este dia de adeus. Vou lá hoje. Na choperia do Sesc Pompéia. Quero ver o Svetlana, que parece ser interessante. Fora esse nome que eu fico repetindo, não sei o que quer dizer, mas é belo, Svetlana, Svetlana, parece nome de sueca esguia e pálida, meio poética. E meu amigo M. que me desculpe, mas eu não aguento mais ir a shows do Abjeto Amarelo. Cansei, viu... Mas já que eu estarei lá, vamos ver. Tenho me sentido exatamente como no fim de 97. Naquele ano eu também fugi por uns dias, tomei um ônibus e fui virar hippie na chapada diamantina. Disseram que eu virei luz depois. Me fez bem, eu deixei um monte de lixo lá. Pois eu quero deixar um pedaço da bagagem enterrado na areia da praia deserta onde devo chegar na tarde de sábado. E a mulher da pousada hoje no telefone me perguntou se a gente queria ir de barco ou de jegue até o povoado. Não consegui responder de primeira, este é um tipo de dilema a que eu estou pouco acostumada... Sempre que ouço So long Marianne fico pensando em um quarto de paredes brancas e porta azul, muito frugal, em Hydra, o mar azul e grego lá fora, a cidade alva refletindo o sol. E Marianne, a mulher que inspirou a música, de vestido comprando tomates no mercado e levando para L. e pedindo ele em casamento. A história foi essa, segundo consta. Ela pediu ele em casamento e ele escreveu uma música dizendo adeus. Eu quero saber das coisas perdidas. Entender para onde elas vão, que lugar é esse em que se escondem os pedaços de tempo e as pessoas que deixaram de existir. O teu corpo, por exemplo, o recheio do teu corpo, para onde ele foi? Para onde fui eu, aquela que antes de ter medo de sair de casa, havia sentado uma vez num parque de criança no meio de uma praça em plena madrugada de São Paulo, tirado uma maça da bolsa, e lustrosa te dado um beijo? Naquela noite eu te perguntei se você sabia o que estava fazendo, sem ter qualquer idéia eu também, mas me comportando como professora mestra doutora. Nós nunca soubemos de nada. A não ser o amor tenro que a gente sentia um pelo outro. E que era verdade. Verdade nunca dura o tempo que devia durar. Verdade não é diamante, verdade não é eterna e me desculpe a falta de jeito da comparação. Aquilo era verdade e deixou de ser há dois anos, por obra minha, por obra tua, pelas cagadas homéricas de um reencontro que nunca deveria ter sido. Agora eu vou te escrever a carta mais comprida que alguém já escreveu. No ponto final, na assinatura da carta, no “Primavera de dois mil e pararara”, você terá saído de mim. Como se fosse possível prever. Como se fosse possível estirpar um dedo assim, sem dó, com data marcada e sem anestesia. Por que ainda me incomoda esse apêndice, esse tecido morto e infecto. O homem do futebol aqui em cima está xingando, batendo na parede, me chamando de volta pra este lugar vizinho de uma casa caixa de paredes transparentes onde eu vejo pessoas correndo sempre no mesmo lugar, bestas de carga que não carregam nada. Este último ano eu passei carregando uma coisa que eu não consegui entender o que era. Eu acho que era um delicado, pequenino e putrefato cadáver. O cadáver de uma coisa que era junta e se separou. Voltando ao seu corpo: você é hoje uma casca com outro recheio. Era chocolate, virou baunilha e eu odeio baunilha com o fevor dos crentes. Saborzinho nauseabundo. Mas odiar e amar, diz a minha avó e todas as avós do mundo, são coisas muito próximas. Devo procurar qualquer budismo então, e me tornar indiferente. Eu ainda não consigo. Estou tentando, mas não consigo. Outra coisa que a minha avó também diz é: dormiu com moleque, acorda mijada. Mas eu sempre me esqueço que foi você mesmo que me disse que era um moleque e eu lá, gritando, querendo que você fosse homem. E você não sabia como. Acabaram de gritar que o Corinthians vai pra final. Uma vez você estourou a cabeça no batente da porta comemorando um gol do timão. Foi sozinho sangrando pro hospital, envergonhado, e depois ligou pra contar. Quando eu vi a tua cabeça enfaixada de um jeito patético, o curativo feito por algum residente sacana e sãopaulino, eu te amei um pouco mais. Lembrar disso me dá vontade de chorar, por que eu perdi o direito de rir dessa história. Para onde foi o que sobrou, se é que sobrou alguma coisa? Pra onde é que foi aquele que estava aqui, que ficou aqui, que brigava comigo por que eu tinha gatos que tinham pulgas e tinha também preguiça de comprar inseticida? Pra onde foi o homem que passava mal com comida natural, o homem dos marlboros, das coca-colas, dos desenhos e livros lindos e cartões de aniversário? Eu nunca mais ouvi uma palavra. Ouvi muitas, torrentes, monólogos de uma boca que eu sei que é sua mas não reconheço. Mas palavras, palavras mesmo, dirigidas para mim, nunca. Acabaram, foram morar no Tibet, viraram história, você desaprendeu a minha língua. Eu ainda gritava e fazia gestos e tentava algum contato, mas depois desisti. Cansa fazer mímica. Cansa muito. E eu, também fui eu, quem te matou. E não adianta rezar e pedir pro tempo voltar e pensar que se eu tivesse feito diferente tudo estaria bem, tudo teria dado certo, tudo tudo tudo por que hoje eu sou nada nada nada mas também não sou, sou tudo o que eu pus no teu lugar. O que também é uma vida. Mas você, a sua memória, ainda é um vórtex, um buraco negro que suga tudo, um leãozinho faminto e cheio de crueldades, eu te alimento e você come a minha carne e a carne dos outros que chegam perto de mim, e você quer mais e eu tomo doses cavalares de novalgina para que as mordidas doam menos e sejam quase doces. Passou muito tempo, já passou muito tempo, não tem volta, a vida andando, a vida andando, e no último ano eu aqui parada muito ocupada a te preparar refeições completas. Suculentas. Pratos enormes de coração despedaçado ao molho pardo. E você sequer sabe disso. Se soubesse, mandava me internar porque é mesmo um absurdo esse ímpeto de nutrição fora de hora. Eu preciso contar uma história para mim mesma. Não é mais para você que eu escrevo. Para você eu já disse o que tinha que dizer e foram anos de tentativas. Agora sou eu quem precisa saber os detalhes dessa história que eu inventei. Por que também tem a história do menino que nunca entendia o que eu dizia. E que era você e que era o mesmo que entendia. To be continued... Daqui a dois dias vou embora. Ontem, casa de M. Benvindo reencontro, conversa que eu não tinha há muito tempo. Essas noites me fazem entender esse amor de amigo velho que eu sinto, apesar de todas as coisas que aconteceram com a gente e com outras gentes em volta de nós. Ele é de uma lucidez que me espanta e que coloca todo o meu ímpeto explicativo no lugar dele: o lixo. E quando estamos só nós dois ficam suspensas as aparências e adequações que tantas vezes me assombram quando estamos no meio dos amigos hype dele. Eu fico feliz com esses cacos de tempo eventualmente dedicados a coisas que eu acho são verdadeiras (de novo essa palavra). Quando alguma roda dentada escondida é posta em movimento por uma recusa que a gente faz ao mundo, as coisas começam a andar. Eu, por exemplo, ando aprendendo a dizer não quando é preciso dizer não. Leve dor de barriga de viagem. Chápeu, repelente, chinelo, maiô, livros, coisas de homem branco tão necessárias para mim. Vontade ocasional de ser Nhambiquara e ter só uma cestinha de palha e quase nada dentro, minha impossibilidade de deixar absolutamente tudo para trás. Eu já não componho minusciosas listas de supermercado e remédios e apetrechos de segurança e coisas inúteis que eu nunca iria usar. Mas ainda necessito de certas coisa imprescindíveis. De manhã, visita surpresa e café com bolacha na casa de P. Ganhei disquinho do tio aí em cima. Um disco de 72, com músicas lindas, entre elas Movimento dos Barcos, que é uma que diz assim: eu não quero ver as coisas passando eu quero é passar com elas, eu quero, não sou eu quem vai ficar no porto chorando não, lamentando o eterno movimento dos barcos, movimento, movimento dos barcos... Eu canto essa música com febre e paixão de reza desde fevereiro. Passei o ano todo tentando fazer ela virar verdade. Agora quem sabe eu esteja começando. "Aos poucos me safarei, começarei um safári..." Eu vou ficar inteira de novo. Capaz de baixar a guarda, abrir a porta e fazer isso sem pressa (esse tem sido o meu monotônico tema- pressa). Capaz de amar, portanto. Tem um veneno de rancor dentro de mim que vai passar e então eu ficarei boa e não vou mais machucar quem quer que seja que estiver aqui do lado com farpinhas do passado. Por enquanto eu só consigo pensar que é muito estranho passar a odiar alguém que eu amei tanto. E mais estranho ainda é sequer reconhecer aquela pessoa que às vezes, meio a contragosto, vem falar comigo. Por que não é a mesma pessoa. É o mesmo corpo, mas não é a mesma pessoa. Um morto-vivo da memória. E eu, mesmo com a minha pázinha amarela e meu baldinho de areia e minhas pequena mãos de criança, vou conseguir enterrá-lo, e dar sossego para o que sobrar. Hoje à tarde, conversando por aí, eu tive certeza de que vou mudar de profissão. Pelo menos vou tomar um caminho diferente. Eu não quero mais fazer o que faço, eu não posso, está acabando comigo. E eu finalmente admiti. Então, tudo ficou mais fácil e começou a andar, pelo menos dentro de mim. Então eu escrevi isso: "O que eu quero escrever sobre (não digo mais "estudar", nem " questão de pesquisa" ou "questão de mestrado" por que eu descobri que só posso fazer algo que diga respeito a mim, que seja uma coisa da minha própria existência) é: Por que nós temos a necessidade de narrar a nós mesmos? Por que a gente escreve diários, cartas, memórias? Para quem a gente escreve? Por que? A. diz que é pra tentar driblar a morte. Eu preciso de muitas outras respostas. E hoje é aniversário dele, menino muito bacana e muito sensível. Pela primeira vez em anos, eu tenho um Vestido Branco de Ano Novo. Pra ver se a Uruca sai. Não custa tentar e custou só dezenove reais... Segundo a grade de tamanhos de uma certa loja de departamentos muito popular, meu manequim é quarenta e oito E eu estou grávida. Para pessoas de bom senso e boa vista, nenhum dos dois procede. A minha avó usa manequim 48. Ela tem corpo de avó italiana. Portanto, eu devia processar a loja, por atentado a auto-estima alheia. É bom ficar de boca fechada. Muito bom. Alguém me disse: o seu problema é pressa. Alguém estava certo. Verão opressivo lá fora. Um homem mal humorado segurando um tripé resmungou comigo, eu dentro do carro só queria escapar. Comprei passagem, vou embarcar. Nuvens baixas, noventa graus à sombra, lojas, atendentes boazinhas mas gritalhonas. Sonhei de noite com alguém que me incomoda. Muitas pessoas dormiam em colchões espalhados por uma sala, eu deitada virada de costas e H., vamos chamá-lo de H, deitado ao meu lado. Eu quase dormindo, ele ao meu lado falando sem parar, tentando ligar para alguém do celular estridente que tinha na mão. Eu não ouvia o que ele dizia, ele me cutucava e tentava tirar alguma coisa dos bolsos da minha calça. Era desagradável, era surdo e eu queria que ele calasse a boca grande dele. Ontem no teatrinho a banda tocava e os vocais eram inaudiveis, mas era visível a cara contorcida do cantor. Incomunicável, e o que eu senti foi aflição. Só quando ele urrava se ouvia alguma coisa baixa, longe, inexata. Ontem, O Dia Em Que Eu Desisti De Falar Com Quem Não Escuta. Isso eu devo a algumas pessoas que generosamente deixaram que eu me comunicasse com elas e falasse coisas verdadeiras, maior medo da minha vida. Dissipou, eu disse a verdade. Não queria que doesse em ninguém, mas algumas coisas doem fininhas e permitem que outras coisas boas possam brotar. Obrigada pelo contato, pelo recontato, pelo respeito, por perceber que para mim, dizer as coisas direito, mesmo arriscando uma perda, é um ato de coragem. Obrigada, vocês. Vocês sabem quem vocês são. |