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Eu quero trabalhar lá no ano que vem. É que eu ganhei dinheirinho e me comprei um presentinho, por que eu precisava me mimarzinha, assim mesmo no diminutivo. Comprei mais um sapatinho boneca para a minha vasta coleção. E uma bolsinha vermelhinha fofinha lindinha. Cuti Cuti Cuti. Lição do dia: sapatos são anti-depressivos. Brincando de E.R, andei o dia todo a traduzir pessoas pelos corredores dos hospitais de São Paulo. Ocasionalmente, eu faço trabalhos de intérprete para uma empresa. E fomos fazer negócios... Brasileiros tem algum problema de identidade que faz com que eles sejam inadequados nessas horas. Tudo devia ser rápido e objetivo, pra poupar encheção de saco. Mas em todos os lugares a que eu fui, tentaram nos acolher como na "casa da vovó", ofereceram café dezenove vezes, e ficaram contando histórias sobre a origem milenar da banana prata ou qualquer outra coisa "brazilian culture" que possa passar pela cabeça de um diretor comercial. Quando pedíamos para ver as dependências do hospital, nos mostravam as salas de conferência lustrosas e cheias de computadores (um moço chegou ao cúmulo de mostrar as TOMADAS do lugar), quando o que interessava era o simples: sala de emergência, onde eles jogam o lixo hospitalar, ventilação, blá blá blá. Coisas técnicas. Era como se o seu primo nouveu riche da Barra da Tijuca quisesse se mostrar para a Carmen Mayrink Veiga. Eu passei o dia inteiro com um sorriso meio torto na cara, tentando ser simpática, mas com uma vontade quase irrefreável de cair na gargalhada. E a cereja do sundae foi a moça de um dos lugares, que nos convidou para almoçar e começou a falar de filhos e regime e ainda revelou o vergonhoso salário da empregada doméstica nacional como algo bom e abundante e suficiente. Naquele momento eu fiquei constrangida e enfiei um enorme pedaço de salmão na boca, para evitar que um surto de impropérios socialistas saísse da minha boquinha. Nada a declarar. 12 horas de trabalho, três fatias de pizza, uma reuniãozinha com gente cantando J. Gilberto, e sono, muito sono. Vou ali na cama sonhar com strawberry fields forever... P. e a discussão do que fazer depois da escola. Durante anos a gente ficava nas aulas, lendo textos cabeçudos, dizendo o que achávamos sem compromisso com ninguém. Éramos críticas, inteligentes, perspicazes, umas chatas. E depois a escola acabou e trabalho é uma coisa muitíssimo diferente. Você fala menos, pensa menos abstratamente, produz coisas para além do seu alcance e do seu pensamento. Ou seria para aquém? Mas do papo todo a gente tirou uma enorme vontade de fazer coisas. Discutir, pensar, fazer nossas cabeças menos automáticas do que elas estão agora. O que surgirá disso eu não sei. Mas foi bom. E eu percebi uma coisa muito importante: a vida inteira eu fui treinada para fazer análises. E o que produz conhecimento e coisas legais não é análise, é SÍNTESE. Que o ano novo, com seu delicioso efeito psicológico de recomeço, está chegando. Muita gente aqui em volta está precisando. E no horóscopo chinês, 2002 deve ser o Ano do Urubu. Sai! Purifica com sal grosso! Não ficar ressentida com gente que faz EXATAMENTE aquilo que você tinha pedido para a pessoa não fazer. Mas deixa pra lá. Ressentimento azeda qualquer pele de pêssego como a minha. Tô lendo um livro ótimo do Walter Benjamin, Rua de Mão Única. Tem um trecho em que ele compara livros e putas, e chega a conclusão que eles tem muito em comum. Eu vou ter uma filha chamada Yoshimi. O ar de São Paulo deveria ser todo engarrafado e mandado pro Instituto Adolfo Lutz. Cof, Cof, eterno Cof. Dia seis eu dou uma banana para esse lugar nojento. I thought I was smart - I thought I was right I thought it better not to fight - I thought there was a Virtue in always being cool - so when it came time to Fight I thought I'll just step aside and that time would Prove you wrong and that you would be the fool - I don't know where the sun beams end and the star Light begins it's all a mystery Oh to fight is to defend if it's not Now than tell me when would be the time that you would stand up And be a man - for to lose I could accept but to surrender I just wet and regretted this moment - oh that I - I Was the fool I don't know where the sun beams end and the star Light begins it's all a mystery And I don't know how a man decides what right for his Own life - it's all a mystery Cause I'm a man not a boy and there are things You can't avoid you have to face them when you're not prepared To face them - If I could I would but you're with him now it'd do no good I should have fought him but instead I let him - I let Him take it - I don't know where the sun beams end and the star Light begins it's all a mystery And I don't know how a man decides what right for his Own life - it's all a mystery Vou tirar férias. Está decidido. Dez dias no Moreré. Férias de pessoas. Ficarei semi muda, tomarei sol, comerei moqueca e esquecerei que há gente bruta no mundo. Talvez eu fique por lá, apesar de eu não ter exatamente o tipo físico de uma pescadora. De qualquer forma, dias e dias de dormir no silêncio, sem conversas dramáticas e sobretudo sem chapoletadas. Não aguento mais tomar chapoletadas. Estou de greve quanto a isso. Obrigada pela preocupação e pelos telefonemas , todo mundo. E de tudo isso, emerge uma sensação estranha de estar tentando um zero a zero, de estar tentando limpar a área. De estar tentando. Phoenix rising. I ain't sayin' you treated me unkind You could have done better but I don't mind You just kinda wasted my precious time But don't think twice, it's all right Comprei um vinil do Transvision Vamp por quatro reais. O disco perdido dos meus quatorze anos. Landslide of love you thrill me, landslide of love you could kill me, landslide you hit me from above... Tudo verdade, ainda hoje. Teve uma parte boa do dia. E eu quero me lembrar dela pra dormir quente, em paz. Acordei e fui passear na Galeria com o Bruno, comprar discos, conversar com alguém muito novo e ao que parece muito pouco calejado com a vida. É difícil encontrar pessoas não amargas nessa altura do campeonato, e isso foi bom: tarde toda atrás de flaming lips e drum 'n' bass e cadê aquele vinil do Dee lite, olha só está aqui, esta cantora é o máximo, vamos tomar chá gelado e andar e se perder no centro da cidade. Na frente do teatro municipal tinha um homem que vendia um mar imenso de bichos de pelúcia. Eu tive vontade de mergulhar naquele monte. Não mergulhei, mas num mundo perfeito mergulharia e enquanto isso o rádio do marreteiro ao lado tocaria She don´t use Jelly e todos os transeuntes dançariam. Andamos mais, cansamos, fomos embora e no metrô já não falávamos nada e tchau na estação e eu fui pra casa e ouvi discos e preparei presente para amiga querida que fazia aniversário e depois fui a um churrasco na casa de outra amiga que também fazia aniversário e comi comidinhas e tomei cerveja, e falei com algumas das pessoas que eu mais amo na vida. E então eu estava feliz. Encontrei você, uma pessoa de antes. Que mais uma vez me fez chorar. Sozinha. Então eu falava para a amiga do lado, que sempre ouviu e para a qual eu sempre tive vergonha de contar a raiva que eu sentia, eu falava "dói tanto, dói tanto, mas não tem problema, eu vou engolir o choro". Que foi o que eu fiz durante o último ano inteiro. E você lá, parado do meu lado, contando as novidades, dizendo que apesar de tudo a sua vida está sempre maravilhosa, e perguntando como estava a minha mas sem muita vontade de sequer ouvir. Então você disse: você está quieta hoje... e eu abanei a cabeça dizendo que sim e antes que eu pudesse falar qualquer coisa você já estava lá deslindando assuntos. COMO SE NADA NUNCA TIVESSE ACONTECIDO. É essa sensação de ter me tornado invisível que me mata. E a minha educação singela sempre que te encontro. Te beijo na entrada e na saída e cumprimento a sua mulherzinha que me dá ânsia de vômito, mas eu engulo a ânsia e sorrio e sou uma lady politeness de dar nojo. Minha garganta dói é por causa das coisas que eu não disse e por outro lado não tenho mais nada pra dizer. Hoje eu tomei uma decisão unilateral, para me fazer bem, para me fazer sobreviver, e que é assim: eu nunca mais quero te ver. Nunca mais. Se por acidente nós entrarmos na mesma sala, eu saio. Vou embora. Os amigos que dão festas, eles vão ter que me avisar, por que é eu ou você, e eles que escolham, nem que isso signifique passar meus sábados à noite assistindo TV e comendo pipoca. Para sempre. Vai te fuder. E isso não diz nem mais respeito à você. Há meses eu rasguei cada foto que eu tinha de você e depois fiquei me achando uma tonta melodramática. Bom, eu não era, não sou, só preciso é colocar o meu limite nessas coisas. E o meu limite é: fora, eu nunca mais quero ver a tua cara que me faz um mal terrível. Eu nunca mais quero te dar beijinhos educadinhos no rosto e encostar a minha linda pele na tua cara ou na cara da tua mulherzinha. Me dá nojo. E eu percebi que até hoje isso era nojo de mim mesma. Agora não. Eu vou me livrar de você. Eu estou a caminho. |