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Não serei mais ansiosa, Não serei mais ansiosa. "Repita isso na frente do espelho todos os dias pela manhã" disse Lair Ribeiro " e você será feliz". Ao que eu repondi: " Mas como?" Esse disquinho novo do Beck tem umas músicas que parecem Pink Floyd... Ontem, onze da manhã, Teodoro Sampaio. Um cachorro de sapatos vermelhos e um homem-cabeça-de-cadeira. Essas coisas me fazem dar risada que nem boba no meio da rua de dentro do dia ruim. Ele apareceu para dar uma explicação rápida de sua vida pós-mortem. Que está foda, ao que parece. Acordei com vontade de bater o carro no poste e não deixar rastro. Mas passou. Eu quero ter sonhos e brigar por eles. Vou parar de ter medo de errar. O de sempre. Fazer as pazes é bom mas não me livra de procurar um propósito na vida para além do lúgubre distrito industrial que eu visito todo dia de manhã. E eu não tenho a menor idéia. E como representante legítima de toda um geração fodida e mal paga (literalmente), que dá a bunda todo dia em subempregos ridículos advertised as poetry, eu digo: quero fugir para um casebre com computador, na praia, e escrever uns livros. 1- Até os homens mais toscos do mundo tem coração 2- Ruffles sabor churrasco + dois bebezinhos recheados de chocolate = morte hepática 3- A gata está no cio de novo, eu acho. Segundo os preceitos desta técnica (?) aí em cima, eu estou toda errada. Minha casa está inteira atrolhada de coisas que eu não uso, restos de uma república e um apartamento anteriores. Fora os restos das pessoas que moraram aqui antes. O varal caiu na minha cabeça pela terceira vez ontem, tem um enorme espelho rachado no meu quarto, a janela desabou, meus livros vão ser revoltar e me devorar, eles estão em toda parte. A linda organização alfabética dos discos foi pra cucuia, e eu não estou com tempo nem saco pra fazer nenhuma arrumação. Eu queria muito que houvesse um profissional especializado em fazer arrumações de todas as coisas de uma casa. Por que a faxineira é santa mas não é deusa. Estou módulo amélia em crise. Eu não sou uma pessoa nascida para as dificuldades práticas da vida. E no que diz respeito a bancos, sou uma monga completa. Um dia antes eu começo a planejar a ida ao caixa eletrônico (o mundo é melhor agora, antes eu tinha que falar com pessoas, e isso doía muito). Então eu vou. Esqueço a senha do cartão. Volto pra casa, tento achar o papelzinho que estava na minha mão minutos antes. E o gato acabou de devorá-lo. Redescubro a senha. Tomo café. Ouço um disco. Respiro fundo. Começo de novo. E lá vou eu, ridícula, a brigar com a maquininha. Meditação, meditação... E agora eu inventei de fazer um livro caixa, por que não consigo controlar o que ganho e o que gasto. Eu sempre gasto menos do que eu poderia por que tenho pânico de entrar no cheque especial. Meu pai ri de mim desde o dia em que eu disse pra ele que eu achava que podia ser presa se a conta ficasse no vermelho. Eu devo ter sido ladra na outra encarnação.` Sartre estava errado, o inferno não são os outros. O inferno sou eu mesma... Algumas coisas, na vida da gente, doem e vão doer sempre. Uma dor fininha, que não machuca. Uma dor de cicatriz em dia de chuva, como a que a minha mãe sente até hoje no corte da cesariana de onde eu nasci. Essas dores são pistas dos lugares por onde eu passei, resquícios: perceber que eu falo um pouco de francês apesar de tudo, sentir uma pontada súbita no coração quando vejo uma mulher pequena, suspirar um pouco quando passo por um Gurgel na rua, o gosto do café amargo que eu aprendi a tomar com você. Pegadas. Pegadas de mim mesma que desembocam na minha cara, em frente ao espelho, esta cara mais cansada, mais velha, eu queria dizer mais sábia. Não sou sábia, só vou indo. O gosto do café que eu tomo sem açúcar por sua causa ... são coisas muito pequenas e sólidas, hábitos imutáveis, que a gente acaba herdando de quem a gente um dia amou. Amor é isso: amor são restos. Amor-bricolage, amor-recorte e cole, amor-pritt, amor-álbum, amor-agenda. Não tem nada de gradioso no amor morto, nada além de discos herdados, livros roubados e uns cacoetes, um corte de cabelo, um jeito de mexer as pernas. Cacos, pedacinhos. Mas está tudo aqui. Fora da caixa, dentro da vida. E me habita. Sem isso eu não seria quem sou. E hoje, dentro da bruma, eu estou feliz. " De repente, tornou-se indiferente para mim não ser moderno" Reticências entre gente que já foi muito amigo. Longos espaços em branco, enormes silêncios, mas não são silêncios sentidos, são silêncios de quem fala com você pensando em outra coisa... Meus queridos, por que vocês não se concentram? E se não é o silêncio é uma histeria vampiresca que entope a mesa do bar, lugar pouquíssimo propício para entrar em contato, E.T phone home, e um discreto não convite nas entrelinhas. Tudo isso passava meio despecebido, e no dia seguinte eu tive uma crise de vômito, uma dor de estômago horrorosa. Tem gente que fica, tem gente que passa. Verdade da vida. Mas eu não quero, não queria. Ao que me respondem: não, não é verdade, a gente se encontra e se desencontra, se aproxima e se afasta. Os encontros tem sido cada vez mais ocasionais, e duram cada vez menos. No entanto, estou aprendendo a andar pra frente. Contra a minha natureza de carangueijo. Isso é uma frase do Rei. E eu não acredito nesse frio e nessa chuva que me lembram Londres... Londres tem chamado. Me telefonam de lá oferencendo trabalhos, eu dou aulas, compro chá e sonho com uma viagem, uma ida, uma coisa que eu tinha deixado de lado há muito tempo por falta de coragem. É engraçado retomar planos de dez anos atrás e perceber que eles ainda são viáveis. Justo eu, a pessoa mais apressada do mundo. As Flores do Jardim da nossa casa. Tão belo... 1950- Ser miss e tocar piano. 2002- Ser modelo e aprender a ser DJ na escolinha. Nada mudou realmente Essa eu li numa revista semanal qualquer. A Ford Models fez um convênio com uma escola de DJ para que suas garotas aprendam a bombar nas piishtais, ha ha ha. E ficou tudo bem. Por que ontem teve tacos e sorvete e conversa e a sensação de estar viva de novo. E disco do Roberto Carlos pra me alegrar e livros amargos mas sempre necessários. Dormi pouco, não estou cansada. Ajudei a amiga que foi atropelada por palavras. Não paro de pensar que a tradução no Brasil é uma profissão subestimada por que tem gente que diz que tradutor tem raiz etimológica em traitore, e o resultado é que não vale a pena nem tentar. Vou estudar francês. E um dia alemão, e verter palavras de uma língua pra outra exatamente como eu faço agora, quando os pacientes vem falar comigo e a gente traduz junto e põe nome numa coisa que não tinha. Pois é. Do meio do nada de um dia em que eu acordei chorando eu estou feliz. É domingo e eu me dei conta de que eu não sei o que quero fazer da vida e as coisas que eu sei estão bem fora do meu alcance e do meu controle. E tudo demanda um trabalho que às vezes parece meio em vão. Eu só quero ir embora daqui. Eu vou acabar vivendo uma vida solitária, com esse gênio de cadela doberman que eu tenho. Gostei do vocalista, he he he. Com todo respeito. Cheguei atrasada ao último show. E ainda fiquei uma hora e meia na fila, sob um certo terrorismo emocional, tentando sair daquele antro estúpido onde estava tocando Human League. O que se seguiu foi que eu não consegui ir a lugar nenhum nem ver ninguém que eu realmente queria ver. Síndrome do anjo exterminador. Eu estou de saco cheio. O fim de semana tem três dias, dois dos quais foram uma merda. Eu estou com saudades da vida, me sentindo como uma samambaia raivosa. Vou me entupir de café da manhã, ficar gorda e entrar pra Universal. Humor não bom. |