Livros
Estava olhando para a minha estante recheada de Lacans e Foucaults e Freuds e Heideggers. Há séculos a gente procura desvendar os mistérios da humanidade. E o único fato é que a gente é finito.

Cárai
O que é esse Hunky Dory?
Épico é o mínimo.

Criança
E depois de véia eu fiz uma coisa que eu queria fazer há muito tempo. Chamem-me de ridícula, chamem-me de jeca, mas eu fiz um piercing no nariz e estou achando o máximo, ha ha ha.

Nostalgia malvada
O Bowie. Life on Mars. Uma época da minha vida em que eu não tinha que trabalhar e tudo era promessa. E a gente saia quatro vezes por semana e achava que não ia acabar nunca. Poxa, eu tenho tantas saudades de vocês, e eu não falo mais com alguns, eu não vejo outros e quando vejo estamos cada vez mais estranhos, preocupados com coisas como casa dinheiro constituir família dar certo na vida não passar fome. A vida é uma merda quando você percebe o prazer sendo substituído todo dia pela necessidade.
Faz um puta tempo que eu não vou numa exposição de tarde. Faz um puta tempo que eu não corro o fim de semana inteiro tentando encontrar todo mundo que eu amo. Faz um puta tempo que eu não encontro todo mundo que eu amo.
Quero ir a uma festa, quero espantar esse saudosismo.

Happy Halloween
Enquanto isso na sala da justiça, a revisora arranca os cabelos ao perceber que concordância verbal é algo que não se ensina mais na escola. Só isso explica o show de horrores do texto que ela está a corrigir. E que além de tudo é sobre a vida de Melanie Klein, a Madame Min da psicanálise. Aos leitores de plantão, uma lição sobre tempos verbais: PRESENTE NÃO É PASSADO E NÃO SERVE PARA QUALQUER COISA.
A não ser que você seja tchecoslovaco e tenha aprendido português há menos de dois meses.

Relatório ditoso
As aulas me exaurem, me confundem, me sugam uma energia enorme. Por que é uma questão de vestir o risonho personagem logo de manhã. Todo professor é um mentiroso. E eu fico lá, tentando convencer os alunos de que aquilo tudo não é chato. Queria ser tradutora, revisora, editora, só. Ler livros pra viver, fazer um pouquinho de psicanálise e ser feliz pra sempre.
Enquanto isso, Herberto, o ficcional, ameaça assombração. Todo morto que não tem sua história contada um dia volta e se vinga. Por isso eu preciso arranjar tempo para ele e para a enjoada mulher que um dia o amou.
E eu lá, because, because, where were you born, e a maldita língua que eu aprendi sozinha em casa aos dez anos de idade voltou também... eu ando achando isso uma coisa boa, tradução, aulas, essas coisas são sempre mais estáveis e desejadas pelas pessoas do que alguém que lhes enfie o dedo na feridas (essa é a minha outra profissão). Quem sabe um dia eu não vá pra alguma Universidade Londrina para fazer um Master of Arts em tradução, essa arte de escrever tudo de novo. Seria uma boa desculpa.

Olhar afiado
O jeito que este homem vê o mundo é foda. Apaixonante.

Livro
Acabei de ler Estação Carandiru. ÓDEO da PM. ÓDEO do jeito que as coisas são feitas. ÓDEO dos ladrões que não se deixam ter escapatória. ÓDEO de tudo e todos.
meu próximo livro vai ser Pollyana, pra rebater.

Um desejo
Podia ter uma praia bem bonita aqui ao lado.

Busy bee
Esta é uma fase engraçada da minha vida. Está tudo começando. De novo. Estou cansada, feliz, e sem muito espaço dentro. Mas aí eu sento na frente da TV, assitindo ao jornal da manhã, e choro um pouco. Sinal claro de que daqui a pouco eu volto ao normal que é: pensar muito, elocubrar, escrever poemas ruins, e continuar.
Estou satisfeita, e a sensação de estar satisfeita é boa e ruim ao mesmo tempo. Por que me dá prazer, me infla, me incha, me estufa. Mas é como comer demais. Um pouquinho de insatisfação me mantém andando, esse é o meu jeito de funcionar.

Fernanda Abreu, a filósofa
São Paulo 40 graus, peruas dirigindo na Pamplona e causando o caos...
Eu quero um mundo com ar condicionado. Tenho dito.

Ouviram do Ipiranga
Desculpa, mas hoje eu vou ser comum e crente. Por que eu acordei às cinco e meia da manhã pra trabalhar, tomei café, liguei a televisão e dei de cara com o Lula em cima do palanque, ontem a noite, na Paulista cheia de gente feliz. Me deu uma emoção que eu não sei de onde veio. Eu, que sou assim meio cética, que nunca fui petista, eu que nunca acredito, eu para sempre crítica, eu, difícil de ter esperança. Eu, a mulher do "apesar de". Pois é, eu chorei como um bebê. Não sei porque. Talvez pela cara de respiro das pessoas que olhavam pro palanque pensando que um pedacinho delas também estava lá, talvez por que uma da minhas memórias de infância seja meu pai contando das greves da Ford, talvez por que eu lembre do Lula sendo preso, e de muito nova já achar um absurdo que alguém fosse preso por causa das idéias.
Eu só sei que eu chorei. Naquela hora e quatro vezes mais, durante o jornal nacional.
Chorei como quem tira um aperto do peito mesmo sabendo que o aperto está só começando.