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A Mamá me lembrou de um episódio engraçado de quando eu tinha seis anos de idade. Minha primeira carta de amor (e minha mãe tem ela guardada até hoje), prum menino chamado Marcos Monteiro. Ele era uma criança fofa bonitinha, e eu escrevi na carta que gostava muito dele e queria beijá-lo por que ele tinha uma cabeça muito redondinha. E nós estávamos no pré, e meu sapato desamarrava, e eu pedia " Marcos Monteiro, amarra meu sapato?" Aí ele amarrava. Escondida dele, eu desamarrava o sapato de novo, depois pedia para ele amarrar, e assim ia. Até que um dia ele olhou pra mim com a crueldade da primeira paixão e disse : AMARRA VOCÊ. Foi minha primeira decepção amorosa. Onde andará Marcos Monteiro? Deve ter casado, engordado, ficado careca... Deve ter quase trinta anos. Estou com um saquinho cheio dos meus discos e com um saquinho mais cheio ainda de procurar novos discos. Não consigo pensar, não consigo querer. Vou na FNAC ver se passa. Eu queria ter uma vara de condão e ser uma fadinha fodinha e resolver todos os problemas doloridos dos meus amigos mais queridos. Pena que esse seja um desejo em vão. Estou com cãimbra na língua. Falei muito ontem. Ontem Santa Madalena até a 1 h, e cinco minutos na festa que mal tinha começado, encontros fortuitos que não doem mais (mas por que a voz dele tem que mudar? Parece que ele tem medo de mim ou uma dor de barriga súbita ao me ver), saco cheio de fazer cara de visita. Outros propósitos melhores na noite e na vida. A pele que encaixa na minha, esse amorzinho bom até de planejar visita à loja de lustres, vontade de passar a mão, ver filme, beijar na boca, e hoje de manhã, eu me deixando ouvir Belle and Sebastian e essa nostalgia meio barata que tem em todas as músicas, e suspirar, e tomar um café. Eu gosto destes dias estranhos de primavera. Nada a ver com comida ruim. É que hoje é sexta feira. E eu, agora que trabalho, tenho aprendido a amar a sexta feira com um ardor que eu nunca tive. E trabalhar também tem sido bom, vou vislumbrando independência. Aula as sete e meia da mahã. Depois corrida com Mamá (fazer exercício conversando com a amiga é indolor e delicioso, eu nunca tinha experimentado antes), banho, metrõ até a São Bento, almoço japonês com Patrícia ao lado da Bovespa, café, comprar roupa de balé na filial do inferno, casa, trabalhar por uma hora, casa de novo, duas cervejas, Lú e convite para o Santa Madalena, esperança de encontrar os doidinhos (Léo Boca de Sapo, Gim Finado Toness e Serge, que não é Gaisbourg, e agora essa chuva lá fora e a janela que caiu e o quarto que provavelmente vai alagar e um ritmo estranho que me deixa muito documental. Que é como os artistas contemporâneos preguiçosos da palavra começam. P. veio e contou da visita que fez ontem ao Carandiru. E eu fico brava e com vontade de chorar sempre que vejo uma ruína, um resquício ou a verdade viva da estupidez desse jeito que a gente tem de organizar as coisas. E lá no fundo o Mano Brown cantando que os detentos são efeito colateral do sistema e eu concordando com cada palavra foda dele que me incomoda e não gostando por que sou eu, também eu, a puta loira de olhos azuis. Dúzias de ocorrências policiais, relatos de lei que não vale pra todo mundo, um homem de farda cheio de bom senso versus dez moleques trogloditas armados de pistolas. Valha-me Deus, amém, e eu aqui preocupada com o destino do mundo, mas também com as minhas alfaces e o shampoo errado que eu comprei e que destruiu os sedosos fios do meu cabelo. Por que a vida é comezinha. E de repente ela é grandiosa para o Mal. E depois, tem um janela de esquecimento, um lugar de bem, um pouco de amor e a possibilidade de acordar amanhã pra trabalhar e desejar de novo. Tem dias em que seria mais fácil acreditar no lá de cima. Mas eu não acredito. Que alguém nos proteja, anyway, amém. A música tema de hoje: She works hard for the money. Donna Summer, trash 80´s , o clip da garçonete vestida de rosa. Because EU worked hard for the money. Eu só queria ouvir uma musiquinha... O último post é dedicado ao Jesus Jones, ha ha ha. Tem, uma razão pra isso: uma mulher robô me ligou na secretária eletrônica, dizendo-se mensageira de uma dessas empresas que organizam festas, e me contando a notícia terrível: ELES VÃO FAZER A FESTA OFICIAL DE DEZ ANOS DE FORMATURA. Eu não quero ir. Eu tenho medo e asco. Mas ao mesmo tempo estou morrendo de curiosidade pra ver quantos quilos os meus coleguitos engordaram nessa década que passou. Ligo ou não ligo de volta? Há dez anos atrás, eu ouvia Jesus Jones. Minha vida me atropelando de novo, afazeres domésticos e não tão domésticos, infinidades de telefonemas, supermercado, dentista, a janela desabou, como outras coisas dentro da casa, plantei os temperos no vaso, sujar a mão de terra era só mais uma tarefa, aula de inglês que me deixou feliz as sete da manhã ( o compromisso de ensinar é mais leve do que os outros que eu tenho, de cuidar das histórias das pessoas, de ajudá-las a não pirar ou a despirar). Turbilhão sem intensidade e sem tempo de sentir nada. Desarvorada, meu deus, estou desarvorada. É compra, é troca, é dinheiro, é conta, é trabalho, é lavanderia, farmácia, banco, médico e todos os não lugares de uma existência todos num dia só. É muito besta essa vida que a humanidade inventou. Uma espécie burra, essa. Vive só uns oitenta anos e gasta mais da metade do tempo da vida com coisas ridículas. Tem uma rádio rock. O nome dela? FalaSério FM. E o locutor é o Garoto Enxaqueca. À tarde, para fugir do calor sufocante da cidade, fomos procurar um moço na roça. Um primo dele nos levou por trinta quilômetros de terra até um casebre em cima de uma dessas quase-colinas que tem aqui. O nome do moço era Celso, ele tinha uma mulher, a Edna e uma filha bonita de cinco anos. Tinha muito pouco na casa - não tinha luz elétrica, não tinha água encanada, só tinha água de cisterna. Ele tinha 25, ela 28. Ele fazia experiências agrícolas malfadadas no quintal e trabalhava na roça dos outros, ela era professora leiga desempregada e cursava o 2o ano colegial. E escrevia poemas. E músicas que os dois cantavam juntos. Tinha muito amor ali, tinha os olhos dos dois que se olhavam derretidos, companheiros. Eles me ofereceram um copo da água deles como se fosse champanhe, e ali era. E eu vi que este sentimento estranho que a gente chama de amor é o que dá sentido para qualquer vida, em qualquer lugar, mesmo naquele lugar onde tudo, menos o próprio amor era escasso. Achei bonito. Eles viviam o que a gente chama pomposo de um grande amor. Do tamanho daquele sol brabo e do céu redondo que tem lá. Sábado à noite eu estava na casa da mãe do amigo comendo Caruru em Salvador. Sábado de manhã eu estava em Canudos. Canudos Velha, Antônio Conselheiro. Na beira de um açude que encomendaram pra encobrir qualquer história. Não era época de seca, então as ruínas da cidade estavam embaixo d´água, não sobrou nada. O museu histórico de canudos é uma casinha de 2 metros por dois metros com as paredes cobertas de pedaços de matéria que há muito tempo deixaram de ser coisas. Fósseis que podiam ser de qualquer tempo. Não sobrou nada. A não ser um bar chamado Bello Monte e um menino chamado Jackson que queria me convencer a dar alguma coisa para ele. Quatro casas na beira do açude, quatro taperas. Mais um lugar nenhum, desolação e a impressão triste de que em mais de um século nada mudou por aqui. A não ser a coca cola, que chega sempre, três em três dias. Quer ser mal tratado? Voe VASP. Ele JOGAM um sanduíche de queijo sem manteiga na sua cara, e atrasam o vôo uma hora e meia.Da próxima vez, vou de ônibus. É mais gostoso, eu não passo medo e tem vista. Voltei. Acordei. Namorei. Trabalhei. Choveu. Cansei. Vim pra casa. Liguei pra mãe. Vou dormir. Acordarei. Estou voltando... aeroporto de Salvador. Tentando não perder o vôo de novo, com saudades do meu amor e levando um Caruru de promessa para um amiguinho na bagagem. Espero que não me impeçam de embarcar por isso, ha ha ha. Depois eu conto tudo, andei 1500 quilômetros de carro em uma semana. |