E amanhã
Eu vou votar. Sempre me dá dor de barriga na hora de votar.
Na minha zona eleitoral eu sempre encontro as malditas velhas fedidas malufistas com o esmalte da unha do pé descascando. E elas me dão engulhos.

Aqui nesse cantinho da minha vida
Vem vindo uma primavera, esse vento no fim da tarde e um cheiro de anos-luz, eu tinha doze anos, achava que eu era adulta e me arrumava toda pra ouvir a banda péssima dos meninos que tocavam Ira e ensaiavam na sala de ginástica do prédio em que eu morava. O Anderson. Meu amor por ele, que se exprimia no cachorro quente e na banana que um dia ele comeu meio escondido na minha casa. Passar o verão inteiro embaixo d´água, procurando algum tesouro inexistente. Maiô inteiro, pele queimada, bailinhos com roupa nova e linda garota de Berlim. Sorvete na praça. E aquela época da vida em que a gente ainda não tem certeza de nada e por via da dúvidas ainda brinca de esconde-esconde. Eu me vestia como uma moça e tinha os joelhos arranhados cheios de mertiolate.
Eu gosto muito desta época do ano.
Paixão subindo a pele, ainda, sempre, em cada outubro, tanto tempo depois.

...
E cansada demais para escrever. E de ressaca.
Vou assistir a Amélie Poulain com meu amor e ser feliz, boa noite.

Dry Martini
Estou seca de poesia.

Adoro
Ver D.B e os Rasta Puppets estuprando o David Bowie, ha ha ha.
Showzinho e Mateus num dia ótimo, eu estava com saudades.
Foi isso que eu fiz ontem, além de fazer a linha "eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir"- lembram dessa música?
E que lugar tosco é o Orbital. Por que é que eu insisto? Por causa dos amiguinhos, claro.

O encontro marcado
"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro"
Fernando Sabino.

Quando o tempo vira um quadro renascentista
Encontrei um desenho no meio de um livro que ganhei de alguém importante. Ele fazia desenhos pra me mostrar que me achava foda.E eu não acreditava nele. 1999. Eu percebi que sou uma pessoa muito diferente hoje. Toda essa vida parece que não cabe em mim, um monte de coisas que eu já fiz e tantas outras que eu vivi. É um quadro renascentista cheio de perspectiva, sombras, profundidade na parede, árvores postas muito, muito longe.
Outro dia, L. me disse que a minha vida era intensa. Que ele não aguentaria essa intensidade. Eu nunca acredito. Mas talvez eu só não saiba viver diferente. Acho tudo Slow.
E vou escrevendo diários. Até hoje, 9 volumes.

Ai,ai
Contratempo, Lali Puna. A primeira vez que eu ouvi essa música foi no carro do Mateus. A gente estava triste e resignado e era dezembro ou janeiro. Fomos almoçar no clube num dia da semana, na beira da represa, no meio do deserto. E foi bonito.

Uma amor vivo
Como é que isso foi acontecer assim comigo, quando eu menos esperava?

Um amor morto
Preciso voltar a Adélia e Herberto. Por que eles viraram história e eu tenho tido pouco tempo de contar histórias. Estou muito factual. Diário de moça. Rosinhas. Mas tem algo sanguinolento lá, algo que precisa ser dito. E que é: eu não preciso de ninguém que me carregue, eu sei me carregar. Eu preciso de alguém que ande do meu lado. Alguém que cruze o meu caminho. E o que vier disso será bonito e verdadeiro. É o que Adélia descobriu, depois de deixar Herberto finalmente ir embora.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar.
Também isso.

Parte 3: Bizarria de mulher
Mamá é amiga casada e usa aliança. Depois de vários copos de vinho, ela me deu a aliança para eu experimentar. Coloquei no dedo do coração, mão esquerda. E tive uma síncope. Simbologia desgraçada! Eu achava que aquilo era só um anelzinho. Foi muito estranho olhar pra minha mão com aquilo. Eu, mulher-moderna-que-não-pretendo-me-casar-mas-que-se-casar-não-usarei-aliança, fiquei completamente passada com a possibilidade de enxergar o que aquilo significava. Por que não é só um anelzinho, porra, não é!

Parte 2: Girlie cheer up
No meio do dia tenso, Mamá me telefonou. Estava deprê e queria sair. Entre um e outro paciente, visita ao mais lindo salão de beleza do mundo. Lux, na Aspicuelta, 193. Vai lá. Estava tocando Nirvana, a decoração era lindona e eu não saí de lá com um topetinho. Por que a dona do salão é sensível, entendeu direitinho o que eu queria e também odeia topetinhos. E a Mamá saiu com um corte japa punk que me deu muita inveja. Depois café,um pouco de trabalho, supermercado, vinhozinho com casquinhas de siri e fofoca. Um dia de dondoca não faz mal a ninguém.
Pintei as unhas de vermelho-luxo, claro.

Parte 1: como resolver problemas de uma forma adulta
Pois é. Resolvi o papelão de ontem. Vou dar as aulinhas, mas nas minhas condições, que o chefofo aceitou. Foi tão simples, bastou falar com ele. Daqui a duas semanas vou para o interior da Bahia de novo, terminar o documentário. A equipe cresceu, e agora tem o Zé, esse homem meio mudo e fascinante que já morou comigo. E dá-lhe carne de bode mais uma vez. Ontem falamos com a Elenita, que disse que as coisas estão bombando na nossa cidadezinha por causa dos comícios da eleição.

Murchei
O papelão da manhã deixou seqüelas. Ataques de ira sempre resultam numa moleza estranha, adrenalina demais por coisa pouca e culpa por ser mimada, por não saber fazer as coisas, por principalmente não saber direito avaliar o que eu quero e o que eu não quero. Eu devia ouvir os meus instintos, mas não ouço. Então bato o carro, choro, mordo o dedo e chuto a porta. Depois ponho a culpa no carro, no dedo, na porta. Quase trinta anos nas costas e eu ainda me comporto como uma menininha. Tem sido menos freqüente, mas me surpreendeu hoje.
Estou tão exausta que queria chorar.

Cocô
O dia começou as cinco e meia da manhã. Eu ia dar aula de inglês num lugar "pertinho". Pelo menos foi o que o cara disse. Era na peida. Nem era tão longe, mas era muito fora de mão. No cú da Freguesia do ò, pra ser mais precisa. Trânsito, fiquei perdida por uma hora e meia e bati o carro. Me enchi o saco. Voltei pra casa a beira de um ataque de nervos. Eu nunca mais acredito em cafetões de professores de inglês... Agora eu só trabalho por conta própria.

Boa noite
Tem uma pessoa triste por aí. Uma pessoa que eu nem conheço direito, mas de quem eu gosto muito desse jeito estranho de gostar que a gente tem na internerd. Todo o dia eu vou ver o que está acontecendo com ela, que diz coisas engraçadas e tem ataques de mau humor e ama gatos sobre todas as coisas. De repente, ontem eu fui na casinha amarela dela, e tinha um vazio enorme e umas palavras de despedida. Naquela hora, me deu uma coisa ... uma morte pequena. Fiquei pensando que tão longe tão perto, eu não tinha como falar nada, fazer nada, ajudar em nada, eu nem sequer sabia o que estava acontecendo.
Ei, mina, só queria dizer que, mesmo que agora você não acredite, uma hora a merda pára de cair em cima da gente.
Eu sei que não adianta nada eu falar isso, mas uma hora você vai ver. Enquanto isso chora, fica triste, morde alguém aí ao lado.
E come uma torta de chocolate miss daisy sozinha. E continua a fazer desenhos bonitos como esse aqui em cima, e...

Fragmentos de um discurso amoroso
" A palavra "Eu-te-amo" não tem utilidade. Como a palavra de uma criança, não é socialmente restrita; pode ser sublime, solene, trivial. Pode ser erótica, pornográfica. É uma palavra socialmente irresponsável.
"Eu-te-amo" não tem nuance. Dispensa explicação, ajustes, graus, escrúpulos. De certa maneira- um paradoxo exorbitante da linguagem- dizer "Eu-te-amo" é proceder como se não estivéssemos em um teatro do discurso, e essa palavra é sempre verdade (não há outra referência a não ser sua pronúncia: é uma palavra performática)
"Eu-te-amo" não tem um "outro lugar"- é a palavra da (maternal, amorosa) díade; nela, nenhuma distância, nenhuma distorção quebra o signo; uma palavra que não é uma metáfora para nada.
"Eu-te-amo" não é uma sentença: não transmite um significado, mas nos remete a uma situação limite: "aquela onde o sujeito está suspenso numa relação especular com o outro". É uma holofrase.
(Apesar de dita bilhões de vezes, " Eu-te-amo" é extralexicográfica; é uma figura de discurso na qual a definição não pode transcender o enunciado) "
Roland Barthes.

Saldo do fim de semana
Nenhuma costela quebrada. Um quilo a mais. A dor de estômago voltando. E apesar de tudo o corpo feliz. Chorei pela primeira vez. Depois passou. Algumas coisas postas em perspectiva. Uma rachadura bem pequena no meu coração. Medo. Mas é natural sentir medo nessas situações. Amor e medo.

Baby
In love with you

Verdade da vida
ODEIO gente que caga regras. Odeio abuso. Odeio ataque e tensão e desrespeito. Desculpa, mas eu odeio. Me sinto mal, não sei o que fazer. Engulo. Depois entala tudo e uma hora volta, como a pia da minha cozinha que tem seus dias de vingança.

Baby
I´m starting to fall.

Parole
Os traidores foram para Camburi. Nós jogamos dicionário na noite de domingo. Glisseta, mamarracho, nigre-nigre. E nódoa, que não apareceu no jogo mas é uma palavra trágica, tão trágica que chega a ser bonita. E está em tudo, absolutamente tudo. No lençol, na toalha de mesa depois da macarronada, na tristeza da gente, no corpo torto desabando no sofá, no coração recuperado que sente medo de se esfacelar. Uma nuvem. Em tudo que é intenso, há duas palavras: sol-a-pino e tempestade. Não há nenhuma esperança de que os dois não se alternem, de que não haja sombra por cima dos lindos olhinhos brilhantes. Nenhuma esperança de que esta sombra também não se dissipe. Alternância. Um pouco de solidão, um pouco de plenitude.