Nostalgia
Foi ontem. Rua Miranda de Azevedo, Pompéia, S. P. Eu passei em frente à primeira casa em que morei depois de ter saído da Maison Mole (a casa dos meus pais). Era uma república constituída por esta que vos fala, um cenógrafo quase mudo e uma estudante de arquitetura que hoje mora no Japão. Mais a Ana, que não morava lá, mas usava como escritório. Eu não conhecia eles direito, a gente alugou uma casa velha, e alguma coisa diferente começou pra mim. Sofri muito naquela casa que tinha goteiras e um cheiro incrível de rato morto quando chovia. Eu não tinha aprendido as durezas do dividir, era maníaca por limpeza (eu era contra pilhas de louça de 5 metros de altura na pia e não fazer faxina por quatro meses), e não entendia ainda que muita gente vive diferente do que eu e que isso não é ruim.
A gente se divertia muito também. Eu lembro de uns jantares, uns peixes, e dos dias em que eu perdia a capacidade de cruzar as pernas. A festa de inauguração da casa foi um luxo, havia um banheiro enorme e alguém pôs um rádio lá, som ambiente, e os convidados descobriram e foram subindo para o banheiro, e um cara passou a noite fazendo estrobo no interruptor de luz. Nós usamos todos os 355 tupperwares que a gente ganhou para servir bolo com chantily para as pessoas.
Quando eu estava sorumbática, eu sentava no parapeito da janela da frente e olhava do outro lado a farmácia onde o velho famacêutico ouvia tango numa vitrola que chiava inteira. Tinha um pessegueiro que eu ganhei de um amigo e que deixei lá (e para minha surpresa, cuidaram dele, ele está vivo), tinha um vizinho francês lindo que pedia para terminar de fritar seu bife quando o gás dele acabava. Tinha a feira, e comprar rosas brancas na feira, e aquela bosta daquela barraca de peixe que fazia a entrada da nossa casa feder. E o sofá bizzarria laranja. E o entulho no fundo do quintal. E os pelos pretos no ralo do banheiro, e as brigas sobre ter ou não um gato. Depois de nove meses, eu, na minha infinita burguesia, não aguentei e me mudei. Mas depois eu tive saudades, quando pude perceber o quanto aquela casa e aquelas pessoas foram importantes para mim. Para eu aprender que eu também incomodo os outros, para eu aprender a ser diferente da menininha mimada que eu era. Hoje ainda alguns amigos moram lá, a casa foi sendo passada pra frente ao longo dos anos. Eles até fizeram um grafite legal na fachada.
E foi ontem, me deu um aperto de prenúncio no coração. Naquela rua eu olhei as casas enfrente à minha, e elas não estavam lá. Tinham sido demolidas, tijolo roto para todo lado. Os pavorosos apartamentos pombal com piscina vão tomar o lugar delas.
Aquela casa onde eu comecei a aprender a ser gente talvez esteja na fila da demolição. Me deu vontade de chorar.

Flash
Não existe nada mais triste do que pessoas deslumbradas pela firula do poder, pelo cerimonial, pelas coisas bonitas que algumas damas pode fazer pela humanidade. A pieguice da bondade que insiste em se mostrar e se orgulhar de ser bondosa é horrível, o marketing dos aleijados. Um lugar onde se gasta mais em vinho branco do que no propósito do encontro. Peruas Armani. Gente da minha idade que joga a consciência no lixo porque os canapés eram bons, e olha só, alguma coisa a gente tem que fazer pelo futuro do país. Alguns discursos são válidos, alguns projetos concretos, mas a aura que envolve o negócio todo me dá enjôo e vontade de perguntar para aquelas pessoas se elas acreditam mesmo no que estão falando.
E eu tive que engolir um sapo boi pra não dar bola pra minha vontade premente de levantar e ir embora, simples assim.

Verdade da vida
Trabalhar com gente TOSCA é FODA.
Trabalhar com gente TOSCA que não admite que é TOSCA é mais FODA ainda.
Gente TOSCA nunca admite a própria condição.

Eu estou cansada, eu estou com raiva, eu preciso de um x-bacon-egg-maionese-salada duplo. Agora.

Pânica
Acabou o café.

Começando a ler
A invenção da solidão, Paul Auster. Ele é muito árido pra mim. Eu li Palácio da Lua com 14 anos. Não lembro direito, mas me perturba até hoje, tem um vago gosto de comida chinesa.

Isso me deixa feliz
Encontrei a Jú, unha e carne que eu não via há seis meses, caminhos diferentes.
Fofoquinha inesperada na estação.
Adoro encontrar de surpresa gente querida no meio da multidão.

Esporte
Fui à estação de metrô entregar umas fitas que eu tinha transcrito. Esperando do lado de fora da catraca, fiquei olhando a cara das pessoas e inventando a vida delas. Histórias completas. Depois na rua. Olhava os olhos, as roupas, os lugares em que elas estavam sentadas, o que elas diziam difuso no meio dos barulhos. É uma espécie de turismo do olhar que me acomete muito.Turismo não, viajância. Então eu me dei conta de que tinha andado meia hora enquanto fazia isso, ida e volta. É muito melhor do que andar em parques, o corpo contando, suando, gritando com as células de gordura das coxas, da barriga, os bracinhos balouçantes.Então, meu plano é esse: segunda, quarta e sexta, dançar ao som de Chopin. Nos outros dias, caminhadas erráticas. Me alimenta e não custa nada.

Foi um rio que passou na minha vida
Estou flutuando. Me arrepio. Não sei onde estou. Não sei o que será. E ouvi de tarde: por que a necessidade do controle? E pensei, aliviada, que não tem mais a necessidade de controle.

Epifania
Falando sobre música com um policial. Uma sensação estranha, boa, um calor e a vontade de chorar que eu tenho sempre que eu percebo qualquer coisa. Ele na frente do carro, mostrando um disco, e a mulher dele chegou, e tinha o beijo dela, a Wanderléia no rádio e o revólver. Todos no mesmo espaço do tempo, todos transcorrendo em paralelo, com as necessidades, as condições, os propósitos. Tudo lá. Uma vida, duas vidas. Eu assistindo. Um dia as duas vidas vão acabar, eu também acabarei, e a consciência desse átimo de juntidão terá se perdido. Isso é tempo transcorrendo sólido, na frente dos meus olhos.

E ele disse
Mulher que diz que quer transar com homem que fala francês, quer transar com marionete. (?!?)

Teorias
Agora eu estou ouvindo a da atratomina. Do grego, atratos= atrair, e do grego mina= muié. Ai, ai, depois eu explico.
ps:afinal, foram os gregos que definiram que lugar de mulher é fazendo arroz a grega.
Eu me recusaria a publicar isso, mas estou sob ameaça.

Statement
Eu não sou rancorosa, tá?

E ele disse
I feel horny. Olha que eu canto 2 live crew agora.
Acha!

Silvio e Adélia
Silvio chegou na casa dela, tentando explicar por que a odiava. A principal razão, ela pensava, era por que não gostava de explosões e não tinha peitos enormes.
Sílvio chegou na casa dela, fez umas piadas estúpidas quaisquer e viajou no desenho da camiseta dela.
Único problema: ela usava uma camiseta preta. Não havia desenho. E ela cantava numa voz alta de quem sentia coisas. Silvio ficava olhando, coçando a barba e fingia que entendia.
Adélia no fundo era apenas mais uma pessoa de arte. Ok, bancava o relaxo de servir batatas e alface.
Mas primeira chance que tinha: páu, soltava pose de "como assim você não assistiu tudo sobre minha mãe"?
Silvio continuava olhando, beirava o desprezo no canto dos olhos. Ela havia cozinhado batatas com louvor, feito molhos, arrumado saladas e acendido velas. Ele achava tudo isso uma firula sem fim. Queria coisas duras e rascantes que ela não sabia como eram. Ela não tinha pose. Não tinha nada. Mas ele achava que ela tinha. Ela não era de arte, ela não era de nada, ela chorava pelos cantos impunemente. Ele era homem. Ela não.
O pior é se achar calmo, relaxado, mas perceber que a ranhetice continua mesmo depois do fim do trabalho. Depois da calma do cigarro, Sílvio olhou o guardanapo verde e pensou: "Bacana... Guardanapos verdes..."
Os guardanapos não eram verdes. Eram o azul dos olhos dele.
- Por que você está ranheta, querido?
Sílvio começa a pensar em espiral.
Esse foi um texto escrito a vinte dedos e patrocinado por : Lucky Strikes (they are toasted!!!), Bohemias, e uma carne molho de passas e pimenta rosa.
PS- Sílvio queria fazer uma tatuagem com uma xícara de café e um logo de luckies, mas nunca fez. Nós nunca fizemos muitas coisa que queríamos ter feito.
PPS- nO FIM DE TUDO sÍLVIO acha q esse caps lock é um saco e que Adélia precisava aprender a relaxar
- Eu sei querido. Mas faz anos e eu ainda não consegui.

No dia de hoje, o lugar que eu ocupo no mundo
São sempre coisas pequenas. Não são importâncias enormes. Não são atos políticos, vozes cantando, não são gritos. São pimentões brilhantes, e frutas por todos os lados, e pedaços de carne tão fresca que enganam meu olfato e não me fazem pensar em morte. São as pimentas cor de rosa. E os outros tipos de pimenta. Os ovos de codorna, o leite, o pão. Coisas que eu compro e que eu quero ter e que tenho em excesso e que estragam e doem no meu corpo branco que já foi mais firme mas ainda se aguenta por muito tempo. Coisas que eu quero dar pra outra pessoas, alimento nutritivo, prato quente fumegante.
Eu vivo só. Com dois gatos.

A cura
Saída rápida pela esquerda. Comida da avó. Hanna Arendt. Aulas de HTML com papi. E a triste notícia: tudo, no homebanking, tem que ser quadrado. Clean. Bonito e Barato. Vou ter que deixar o Almodóvar para a minha sala de estar. Sou mais uma integrante do movimento contra site porta de circo. Ai ai, será que isso vai dar certo?

Sou eu, seu estômago
Tô enjoada. Muito enjoada. Vou morrer e já volto.

O planeta diário
Ufa. Cheguei em casa agora. Briga de manhã, trabalho à tarde. Muitas pessoas lembram de mim.Meus ouvidos estão inchados de tanta palavra, eu fugi para dar uma volta no quarteirão às seis e meia da tarde. Terminei de ler um livro dolorido. Comi no jantar os restos do almoço. Acabou a água de beber, só da torneira agora, e eu acho que tem gosto de cabelo. P. insiste em ser gentil e dizer coisas como " ele fugiu mesmo". Eu dou risada. É bom estar perto deles mais uma vez, é de um gosto diferente. E tem o exato momento em que o prazo de validade vence e então é preciso ir embora, deitar, ver TV, ficar sozinho e acordar de novo, amanhã, em busca de qualquer coisa.
Tinha shoyu na carne do jantar. Estou enjoada. E tomei uma bronca de L., que foi mais um riso na cara.
Minha culpa de boa moça não vale aquela.
Nada de muito interessante, portanto.
Boa noite.

Olha a letra
I woke up alarmed/ I didn't know where I was at first/Just that I woke up in your arms/And almost immediately I felt sorry/'Cause I didn't think this would happen again/No matter what I could do or say/Just that I didn't think this would happen again/With or without my best intentions, and/What ever happened to a boyfriend/The kind of guy who tries to win you over, and/What ever happened to a boyfriend/The kind of guy who makes love cause he's in it, and/I want a boyfriend/I want a boyfriend/ I want all that stupid old shit/Like letters and sodas/Letters and sodas/You got up out of bed/You said you had a lot of work to do/But I heard the rest in your head/And almost immediately I felt sorry/'Cause I didn't think this would happen again/No matter what I could do or say
Just that I didn't think this would happen again/With or without my best intentions, and I want a boyfriend/I want a boyfriend/ I want all that stupid old shit/Like letters and sodas/Letters and sodas/I can feel it in my bones/I'm gonna spend another year alone
It's fuck and run
Fuck and run
Even when I was seventeen
Fuck and run
Fuck and run
Even when I was twelve
You almost felt bad
You said that I should call you up but
I knew much better than that

Adoro essa música
Fuck and Run, Liz Phair.
Música de menina, claro.

De repente num domingo
Certos pós modernismos me deixam de saco cheio.
Estranha sensação: eu não me sinto sozinha.
Ontem eu estava dressed to kill, assim me disseram.
Hoje eu estou com fome e a geladeira está vazia.
Algumas coisas permanecem.
Outras não, nem um átimo de segundo.
Difícil é saber qual é qual, e que fim dar a cada uma.
Vou tomar café, que é uma coisa simples de se fazer.

Só mais um pensamento
E se for importante, eu espero.

Verdade da vida
Três ou quatro cervejas, pouca conversa e uma boa trepada. É o que a maioria dos homens quer. Podia ser o Bukowski dizendo, mas sou eu.
Nada de mal nisso, mas é de uma rapidez atroz ás vezes.