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Ei, não vai embora. Eu penso muito em você. E estou começando a entender várias coisas. Espera mais um pouco. Não teve barraco. Eu nem saí de casa, planos mudados no último segundo. Fiquei com preguiça do plano B, fui ler. Partículas elementares, de Michel Hollebeqc, talvez o livro mais azedo e mais perfeito dos últimos tempos. Descreve direitinho onde nós estamos, cara pálida. Só teve barraco no meu sonho, de novo. Eu falava para alguém que não respondia os meus telefonemas: o que foi, você está com medo? E chegava à conclusão incontestável de que essa pessoa não me ouvia mesmo. Nunca ouviu. Acabei de notar que hoje é sexta feira treze. O que explica a quinta feira DOZE que eu tive ontem. O que me diz que hoje vai ter barraco. Ah, vai. Turismo no centro da cidade. Largo de São Bento. Martinelli. Folhetos do Alckmin distribuídos por um cara que ia votar no PT. Restaurante vegetariano, pastel de nata e falar sobre as dores que me perturbam há tanto tempo sem ter vergonha delas. Andando a esmo, só um pouco, pé ante pé, olhando, espantada. Vontade de entrar no pregão da Bolsa, não tive coragem. Por que eu sou assim: vou até as portas dos lugares, fico com vergonha e dou meia volta. Não sei do que tenho vergonha, não sei porque dou meia volta. Um metro e oitenta, matadores olhos escuros, uma grande mulher, blá blá blá. E eu tenho vergonha de tudo. E depois, as gravuras. Me olhavam da parede, desde 1640, aqueles olhos daqueles homens que eu senti sabiam paixões iguais as minhas. Cheiro de tempo. E eu pensei que eles também tomavam leite, um pouco de açúcar, uma noite, umas mulheres quentes e um pouco gordas. Me encantei com Ele. Me despedi Dele. Não sei seu nome, mas no retrato dizia, canto esquerdo superior: inventor. Andando de novo. De carro. De madrugada. Deixei os queridos no bar e passei perto da tua casa. Aquela rua.Você não vai me ouvir nunca. É engraçado que eu continue a dizer coisas, portanto. Eu não amei mais ninguém daquele jeito, nem vou amar. Hoje você mora em outro lugar. Hoje você ama outra pessoa e eu finjo amar. Ou amo mesmo, só que de uma maneira diferente, essa maneira de quem viu tudo e doeu tanto que não se deixa acreditar. Duas horas da manhã e eu de novo a sentir impossível falta tua. O teu mito, o teu mito, o homem que eu amei. Qual é o mistério, se a semana passada eu te encontrei e achei que você dizia besteiras de menino? O mistério é: eu quis passar o resto da minha vida com você. E não houve, não aconteceu. E continua. É indecente que continue, mas continua. Vi na tevê a história de um homem, um catador de papéis, que construiu com pedaços de lençol, cadeiras velhas achadas na rua, recortes de revistas e um velho projetor, um pequeno cinema, o mini-cine Tupi, na garagem de sua casa. Sua paixão pelo cinema (ele dizia “a primeira vez que eu entrei em um cinema eu estava no colo da minha irmã. Vi aquela tela branca grande e aquela luz que saia e refletia nela e me encantei”) rende, todos os domingos, uma sessão gratuita para os moradores do bairro em que mora. Tem até sorteio de brindes (ele dizia: “nós não temos dinheiro, mas vamos na loja de R$1,99 e compramos assim umas três coisinhas, distribuímos as senhas e sorteamos no fim da sessão”). Lá não tem Cinemark. O arquivo de longas não é farto, mas soma quinze filmes, que são rebobinados numa enroladora inventada e construída pelo homem com LP´s antigos e outros pedaços de lixo. Achei bonito aquele homem sonhando apesar da condição. Depois percebi que ele não sonhava apesar da condição... ele agia DE DENTRO da condição, escolhendo o próprio sonho, que faz sonhar outros homens grandes e pequenos em volta dele. Me lembrou o mais amargo Bukowsky, que em um poema dizia qualquer coisa como: se você está esperando as condições ideais para criar, como luz e tempo e ar e espaço, você não vai criar nunca, por que quando alguém precisa criar, cria com cinco filhos chorando, de madrugada, depois do trabalho na fábrica, mas cria. E ele diz também que luz e tempo e ar e espaço só prolongam a nossa vida para que a gente invente novas desculpas para não se mexer. Como este país em que vivemos, que espera eternamente qualquer coisa que não irá acontecer, o dinheiro que não tem, a vida que não leva, a violência que um dia há de ser controlada (por quem, meu Deus?). Por que talvez estejamos errados ao acreditar numa essência que não existe, numa natureza humana, dependente de certas condições materiais e espirituais que nunca virão. Nós todos temos desculpas inventadas, e nossa ação está condicionada a coisas que um dia acontecerão, ou a alguma recompensa ou punição que esperamos por cada passo dado. A recompensa não vêm, e nós todos, de todas as classes, de todas as ideologias, aqui parados. A recompensa não virá. Pelo menos não esta recompensa que a gente espera, este céu na terra concebido num mundo de descolamento e reificação e crueldade. A única recompensa possível pelas escolhas que fazemos sempre (mesmo quando achamos que não estamos a escolher...) e que nos impele à ação (mesmo quando achamos que não estamos a agir, pois deixar de fazer também é movimento em direção a outra coisa) é a liberdade que consiste na liberdade minha em compasso com a liberdade desses outros que compartilham o sonho (tantas vezes visto como pesadelo) da condição humana. A única recompensa é a esperança de uma moral construída na solitária perspectiva da total responsabilidade que um homem tem por cada caminho que toma em cada tempo de sua vida. A total responsabilidade de cada homem, desprovida de culpa e desculpa, desprovida de bengalas em que se apoiar, desprovida de determinismos. Por que não é uma questão de haver fatos, condições econômicas, sociais, políticas, psíquicas IDEAIS. A gente precisa ir com o que tem. Por que é de dentro da fornalha que podemos agir, e não apesar do inferno, ou contra o inferno, à espera das condições ideais da revolução ou coisa que o valha. Me cansei de projetos tão grandes que não se concretizam, e há sempre alguém para dizer “mas também, nessas condições...”. Nossos projetos, individuais, mas também coletivos, a medida que a responsabilidade e a liberdade de cada um de nós está atrelada à do outro, tem que ser vivos, dentro deste terrível e tão lindo buraco de termos que arcar, sozinhos, com todas as nossas escolhas e com a nossa existência (que não é precedida de qualquer essência), nesse mesmo país tão quente que precisa tanto tanto escapar da barbárie, e que, tão sem esperança, se recosta no barranco, tranca as portas e bebe pra esquecer a dor da vida. Aqui, neste lugar no tempo e no espaço, nos resta abandonar qualquer espera e condição para as tentativas, por que se sequer procuramos por elas, o vazio é tão grande que só o eco é suficiente para matar a gente de medo. Nos resta agir dentro de uma moral de responsabilidade e liberdade. E quem sabe construir mais uns tantos mini-cines Tupi em tantas garagens de tantos bairros, para nos lembrar a toda hora o porque de estarmos aqui, justamente aqui. Pacote de papelão chegando pelo correio. Partículas Elementares, A invenção da Solidão. Uma paixão incontrolável por livros. Objetos perfeitos, com cheiros perfeitos, texturas e letras dentro que se juntam para formar universos que explicam, mascaram, enfeitam, editam esse outro aqui fora. Desde muito pequena, desde Reinações de Narizinho, é assim. O maior prazer do mundo. Uma salvação pequena todos os dias. Um professor de literatura uma vez me disse, um pouco amargo, que gostava mais dos livros do que das pessoas. Eu achei que ele era um velho louco. Mas os anos estão passando, e eu entendo ele melhor. Nossos objetos de estudo a gente sempre coloca bem longe. Esse é o erro. Se a gente os escolheu, é por que nós estamos muito mais perto deles do que gostaríamos. O único jeito de não parecer um extra terrestre tecendo teorias é se identificar com o que você quer estudar. Saber ir, e depois saber voltar. Acho que vou de novo para a universidade. E recomendo O mal estar na civilização, do tio Freud. Livro massa. Como disse querido Gim, dia nacional da fossa. Fossa laminha, nada dramática, sem vontade de cortar os pulsos, gritar, dar beijo na boca de todos os filhos da puta que já te decepcionaram e depois bater o carro num poste. Nada. Laminha, só. Meio sem razão. Não teve causa. A não ser um vago sentimento de que a vida não pode ser assim eternamente. Eu quero me mandar de novo. Falta pouco. E a história de Adélia está chegando ao fim, pelo menos na minha cabeça. Mais um bolo de papel que vai, satisfeito, para a gaveta. Daqui a uns seis meses. Ojos verdes, Nat King Cole. Nos zóio da cobra verde, hoje foi que arreparei, se arreparasse a mais tempo não amava quem amei. E verde é a cor do ciúme. Dinho Ouro Preto na capa. Eu preferia o Kiko Zambiancchi. De Rider. Eu odeio essa revista. O legado de Ezter, Sandor Marái. Uma mulher que não consegue escapar. Ela é sozinha e construiu quinze anos de vida em cima da memória de um homem foda que um dia volta pra roubar o que sobrou. É bom, e está me sufocando, um pouquinho de cada vez. Por que Adélia sente tanta falta de Herberto? Plena possibilidade de perfeição. Que ela inventou na cabeça enjoada dela. Que eu inventei na minha cabeça doente que vive pensando na vida paralela que nunca existiu, a conta conjunta, os filhos loiros, as cadeiras. E eu aqui tentando lidar com os rigores de ser eu mesma. Trabalho. Mais trabalho. Alguém me disse que Aldoux Huxley estava certo e eu quis fugir. Boteco. O maior peito de frango do mundo. Batatas, querido Mateus. Uma mulher e tanto, e ela também não sabe o que fazer, Rio de Janeiro, Venezuela com cachorros, Jericoacoara ou restar no mesmo lugar. Eu resto.Projetos estapafúrdios, o homem loiro leu uma coisa e não sabia o que dizer. Depois eu fui descobrir pessoas tristes, mas nunca se sabe o que é verdade e o que é pura literatura, embora eu ache que é tudo verdade. E quero contato e não sei como. Sono, leve tesão por qualquer coisa que se mexa. Telefonema querido que eu não respondi. E vai amanhecer de novo e eu fui dormir na hora errada. Mas estou quase feliz, acostumando. Herberto, que coisa é te encontrar num elevador depois de tanto tempo... Elevadores são menores e mais próximos do que eu posso suportar. Aqui eu sinto o seu cheiro quase tão de perto como quando eu despencava nos teus braços. Não passou Herberto. Não passou: mas eu fiz muitas coisas nos últimos dez anos. Muitíssimas coisas que você nem achava que eu podia fazer. Só teve uma diferença de tudo que era antes de você. Viver virou um compromisso. Eu marco hora pra viver, entende? Não é mais só acordar de manhã e sair correndo e ser. Eu tenho um plano traçado, um plano mínimo. Não é nada grandioso, mas envolve agendas pequenas de muitas cores onde eu anoto coisas como levar filho na escola comprar comida trabalhar ficar exausta voltar pra casa. Eu não sou solitária Herberto. Eu tenho que fazer jantares. E cuidar das coisas do meu marido. É, eu casei também Herberto. E você sabe, por que no dia do casamento você estava lá e eu te vi chorando mal disfarçado. Foi bonito. Foi uma vingança. "O cabra que se afoga mais rápido é o cabra que tem a boca maior." Frase de Jeremias, porteiro do prédio dos meus pais. Pessoas que não entendem ironia são ADORÁVEIS, não? Café com leite e Stevie Wonder. You are the sunshine of my life. O único sol de hoje. Ha ha ha. É bom estar aqui. É bom ter feito que eu fiz. E o que eu não fiz. Cada coisa tem seu tempo. Essa é uma verdade fácil. E hoje eu aguentei: um filme profundamente chato, o casal horror ao meu lado no cinema (ele comia pipocas e balançava as pernas com estrondo, ela gritava aquele cara é parecidocomoadriano),uma festa pagodeira travestida de samba rock, um menino de topete que jurava que era um homem. O resto, bem, foi muito bom. Talvez pudesse ter sido melhor. Mas foi o que tinha que ser. Boa noite. |