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Recebi um cupom de sorteio de shopping esta tarde. Nele, uma foto da Marilyn Monroe, e a seguinte pergunta: "O que você faria para se juntar a ela?" Morreria? O prêmio do concurso era algum tratamento de beleza. Andando na rua, vejo uma Sandy Leah de papelão, tamanho natural, sorrindo aquele sorriso perfeito quase psicopata que ela tem. Embaixo estava escrito: "A liberdade é só um detalhe". E a afirmação polêmica da noite foi: um homem prefere ser comido por um homem do que por uma mulher. Baseada na estatística aproximada de que no brasil há cerca de 900 proctologistas, e apenas 4, mais ou menos, são mulheres. E indo para o trabalho eu vi homens vestidos de super-heróis verdes sobre patins, com o nome de uma importante companhia de telefones escrito no peito. O diretor de marquetim da dita empresa É. Só pode SER. Enrustido. E cruel, por que obrigar as pessoas que precisam trabalhar a passar por aquilo é muito malvado. Sai do Armário, porra! Johnny Guitar, da Peggy Lee. "There never was a man like Johnny, my Johnny Guitar..." Em algum ponto da bizarra noite de terça feira eu comprei um Cd dos ditos cujos acima. O disco é bonito. Mas aí vem um DVD, um "vídeo-diário". E tem uma hora que a Noemia pede prum inglês businessman ler as críticas de jornal aos discos deles. As coisas ali escritas faziam "baixo pulsante" e "acepipes" parecerem pérolas literárias. Jornalista de música é torto em qualquer lugar, ha ha ha. E o homem ainda imitava o que ele achava que eram os sotaques dos lugares de origem dos jornais. Tomei coragem. Vou fazer balé. Olha eu aqui de novo, olhando a fumaça que sai da xícara do meu café. Eu não sei por que, mas isso sempre me deixa feliz. Sapato Velho do Roupa Nova. E Rua Ramalhete do Kleiton e Kledir. Meu coração fica apertadinho e suspirante quando ouço essas. Musiquinhas de infância, lembro da minha professora de redação, a Tia Sandra, do cheiro de pastel da casa da vó, da cortina de renda vagabunda no sobradinho de vila operária, do cheiro de talco de homem do meu avô, da poltrona de couro em que ele sentava, eu no colo dele, ele apertava a minha mão até eu pedir pra parar e era uma dor boa, eu sempre queria repetir a brincadeira. Ele era alfaiate e tinha que lavar as fazendas de tecido antes de fazer as roupas. Aí ele punha os panos pra secar no quintal minúsculo e era uma coxia imensa, eram balanços, era uma floresta cinza de casemira, era qualquer coisa que eu quisesse. E a vizinha tinha um papagaio que chorava igual a minha irmã. E de sexta feira eu dormia lá e podia ficar acordada até mais tarde, assitindo Globo de Ouro com eles. Isso faz muito, muito tempo. Mais de quinze anos. Almocei um tostex de requeijão com picles, que era o que tinha na geladeira do meu chefe. Não é que ficou bom? Jantei assistindo à TV, que eu liguei pela primeira vez desde domingo. Tinha as Gilmore Girls, um seriado de mãe e filha que passa na Warner, elas falam sem parar tentando ser espertas, tem uns diálogos smart ass que eu gosto. E tem o Jess, um moleque de Nova York que só dorme ouvindo Ramones e Pavement. Eu sou apaixonada por ele. Pelo menos é melhor do que se apaixonar pelo Gianechinni. PS- Esse post é especialmente dedicado para a Criz, fiel companheira de cabeleireiro e manicure. Beijos. Ó só o que eu estava pensando: o corpo das pessoas é uma coisa estranha. Por mais que você goste de alguém, tem gente que não encaixa, a pele irrita, as pernas atrapalham, os dentes batem quando a gente beija. Agora tem gente que até os poros encaixam... A única constante é que quando você está com alguém, sempre sobra um braço perdido no meio. Estou dando ocupado. "O melhor teria sido não ter dito o que eu disse. Mas que posso fazer? O melhor teria sido não ter nascido.Tenho dito. O melhor teria sido ser frade lá no México. Talvez nem no México, mas em minha própria terra. Em Monterrey. Talvez o melhor tivesse sido isso. Tenho dito. Mas quiçá o melhor seja isto. Estar aqui. Estar esperando. Estar pensando na forma de estar. Estar a todo momento devorando a mim mesmo. Enquanto aprendo novas artimanhas e temo a morte. Tenho dito.(...) É que não há saída. É como se a todo momento me fosse inteirando do inútil destas fugas. E no entanto me digo: Faz todo o possível, faz todo o possível. E o faço. Mas o pior é que nunca se sabe onde termina o limite das possibilidades. E, se tudo é possível, é como se fosse impossível, já que não se pode fazer e não leva a nada." Reinaldo Arenas, O mundo Alucinante. Tudo o que eu escrevo aqui parece frívolo. Tudo, as frivolidades e as dores. Talvez seja frívolo como as crônicas são. LITERATURA, tá entendendo? É claro que isso não desculpa nenhuma das minhas crueldades. Eu quero pipoca. Não tem pipoca. Nem milho. Nem supermercado aberto num raio de quilômetros. Aí, sentadinha no teatro, eu pensava: esse pesadelo não vai acabar? E imaginava o final feliz de filme que não vai existir nunca para minha vida. Por que não é um pesadelo. É só respirar. É o que diz o meu relógio. Damon and Naomi me fizeram chorar. Damon é um mala monstro, mas sabe falar da Dor. Aquela que eu estava sentindo por estar sentada onde eu estava. Era uma piada patética, mas eu não vou explicar, para evitar a exposição alheia. Não era uma piada. Desculpa, desculpa, mas às vezes eu preciso ser escrota pra me libertar. Minha gata acaba de derrubar o telefone com estrondo. E eu continuo aqui. O que eu estou fazendo aqui, a não ser me dar conta da liberdade (que equivale à solidão) recém adquirida? Pois é, saí do teatrinho tensa, pensando onde estou onde fui me meter como fui fazer essas coisas com pessoas de quem eu gosto tanto? Saí, fui tomar cerveja. Fui ser esperta, fui cantar bem, fui impressionar gente que eu queria caísse de novo dura por mim só para eu dizer não vai dar meu amor esse tempo passou. A verdade é que no final da noite eu achei ele bobo. E ele não é você, que vai ler e que vai achar que é você. Você eu deixei puto e triste e não queria mas não consegui. Desculpa. Pelo menos eu reencontrei a Estela, que fala fino e fofo, a Estela de quem eu gosto, a Estela tímida, travada, querida. Conheci ela numa festa, por que nós tínhamos uma teoria de que o homem perfeito era um ex-namorado meu, que tinha dito que era gay, depois mudou de idéia e achou numa linda mulher o grande amor de sua vida. Estela, o homem perfeito não existe. Ou está ocupado, antes da gente. Chega a ser engraçado, não? Depois ela fez macarrão com brócolis. Depois a gente tomou umas na casa da Maria, se entendeu e sentiu saudades. E hoje a gente se encontrou e eu dei carona pra ela. Ela faz umas artes foda. Gravadora, entre outras coisas. Cheguei em casa e tinha oito recados na maria amélia. Todos fofos, legais, amorosos. Entrei no elevador e pensei que deviam proibir vidas tão intensas. Eu ia viver intensa mesmo assim. Foda-se, eu acho que isso é intenso. E tem gente que diz que eu escrevo parecido com a Clarah. É, pode ser. Eu não me ofendo nem um pouco. Por que no fim é a mesma cidade, a mesma dor e a mesma procura. Eu sou a Clarah coxinha, com TV à cabo, empregada e internet. Mais uma vez estou bêbada (e feliz, apesar das espectativas), boa noite, adeus. E eu te amo Mateus. Só pra você ficar sem graça e querer me matar e me achar jeca. EU SOU JECA. 1-Café (cumprido) 2-Banho 3-Trabalho (com intervalos para ler o Camus) 4-Assalto à geladeira de meu empregador 5-Trabalho (com intervalo para assistir Discovery Channel) 6-Terapia 7-Barmitzvah (Damon and Naomi, Sesc Vila Mariana) O homem de P. me odeia. Então, ontem ele me manda um recado através dela: "Diz pra sua a amiga que eu sei que quando ela for mais velha ela vai ser daquelas que beija cachorro na boca". O que ele quis dizer com isso? Que sou meiga? Que sou desesperada? Que sou zoófila? Filosofia Pirassununguense é mais difícil de entender que Kant. Fiquei feliz de ontem. Muito feliz. Vamos fazer um som e marmitinhas para você levar pra casa, sim? Prometo não comer tudo da próxima vez. Amo você, querida (põe a dublagem perua afetada aqui quando você ler) Beijos. Eu sei que vou sonhar com a próxima viagem. Quero sonhar com a próxima viagem. Já tenho ônibus pra pegar, e me condenei a ver como uma danada. Por que eu não vou tirar fotos. Não vou ver coisas pitorescas. Não quero, me nego e a única coisa que me impressiona é um velho em Barcelona tocando violão sentado na calçada, de costas para a vitrine do restaurante onde eu como paella vegetariana. As pessoas vem falar com ele, ele dá um santinho, uma fita, um agrado qualquer para elas. Elas lhe dão beijos. E tem uma luz que bate num vitrô do outro lado da rua, sacada no primeiro andar, barri gotic. A luz perfeita que me fez parar de ter aflição naquele dia. "Viajar me deixa a alma rasa/ perto de tudo, longe de casa/ Em casa estava a vida/ aquela que, na viagem, viajava, bela e adormecida./ A vida viajava/ mas não viajava eu/ que toda viagem/ é feita só de partida." P.L. " B. como americano superior. Sua psicologia: a gente do mar ama a montanha e a gente da montanha ama o mar." E tem outro jeito pra ser? Eu tenho sido assim desde sempre com todas as pessoas que eu amei. Eu mudo de idéia, eu me arrependo, eu desisto de tudo depois quero voltar atrás depois desisto de tudo de novo e de novo e de novo. E vou arranhando as peles das pessoas no caminho, e arranho os meus próprios dedos, vou esfregando eles em paredes de pedra, em muros de tijolo, em cercas de concreto, em saca-rolhas, abridores, facas de pão. Nem por isso o que eu senti é menos amor. Tentando fazer passar a raiva, andei por entre as estantes da biblioteca meio a esmo, querendo achar qualquer coisa que me confortasse. Achei um diário de viagens do Camus. O conforto não veio. Mas eu peguei o livro assim mesmo. " O peleteiro X está no navio. Assim ficamos sabendo que ele tem um magnífico serviço de porcelana, uma prataria estupenda etc. Mas que se utiliza de cópias que mandou fazer, guardando trancados os originais. Ao que me pareceu, tem também uma cópia de mulher, com quem nunca fez outra coisa senão uma cópia de amor" Diário de Viagem, Albert Camus. Depois do aeroporto, fui inexplicavelmente parar na Feira da Vila. Como se eu tivesse batido a cabeça e acordado quatro horas depois. Eu no meio da Fradique Coutinho, pastéis, acarajés e fogazzas por todos os lados, um cara distribuindo folhetos que diziam "ensine seu cachorro a ser educado" e um adolescente malaco sem camisa na minha frente, praticamente lambendo (sem autorização) a orelha de uma loirinha que passava - quase dei o folheto pra ele. Talvez a ida ao aeroporto, o café da manhã surreal, a fome, talvez tudo isso tenha me levado para aquele ponto no espaço. Depois de atravessar um mar de pessoas, encontramos o oasis que não aceitava cartão de crédito. Cerveja e guacamole, amém. E para terminar o dia, quatro horas na locadora tentando escolher um filme. Achamos salvação: John Waters, meu querido, quando eu acho a minha vida absurda, eu assisto a um dos seus filmes e rio de mim mesma.Crybaby foi o de hoje, mas eu amo Pecker (que em português chama O Preço da fama) e Hairspray mais que tudo. Agora eu estou aqui, tentando voltar pra cidade, pro meu corpo, pra minha vida. Meu Deus, que dia estranho. Eu queria conseguir sentir alguma coisa que não fosse espanto. Estou indo para o aeroporto. Mas não vou viajar. Despedidas (é a 5a e última dessa vez) me dão dor de barriga. Hoje não é um dia fácil. Estou sozinha. O apartamento inteiro para mim. Fazia cinco anos que isso não acontecia . Fora a dor, a minha e a causada nos outros, parece bom. É como se durante muito tempo eu tivesse me empanturrado, comido quilos e quilos de comida, sem ao menos saber se eu estava com fome. Era injusto com a comida, que eu não comia com o devido respeito. Era injusto com o meu estômago, que só esperava pelo próximo sal de fruta e o próximo bocado guela abaixo. Year of the Horse. Chuif. Fome à meia noite e meia. Todos os restaurantes em volta fechados, fomos para adivinha onde? Sim, a luz amarela do enorme e reconfortante M brilhava sobre nós. Eu estava de mau-humor. O estacionamento estava cheio. Tinha três moleques de dezesseis anos com um figurino inacreditável cantando popozudices na mesa ao lado. EU PEÇO DEMISSÃO. |