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I'm really Sick. I'm the kind of person who needs salvation. How pathetic is that? Está tudo um pouco errado. Exercícios para ficar triste são muito fáceis de fazer. E é sem surpresa que eu percebo estar com raiva, mas não é uma raiva que move montanhas. É uma raiva pequena, meio nojentinha. Uma raiva de quem não sabe o que fazer com o resto de vida que tem e continua procurando JUSTIFICATIVAS, boas idéias, qualquer coisa assim. Coisa de gente que pergunta o tempo todo: será que eu amo alguém? E se eu amo, o que o futuro trará, o que ele significa? Eu queria que cartas de tarô fossem mapas cartográficos, exatos, perfeitos. E que me explicassem exatamente onde eu estou e pra onde eu vou. Será que alguém me ama? E se me ama, o que isso quer dizer? Responda, por favor. Estou me sentindo sozinha. Acabei de ler "Amarrem meu nome na boca de um sapo", de Léo Varella. É um Please Kill Me de uma pessoa só, sem bandas, passado na Unicamp da década de oitenta. A capa é um pouco horrível, mas é um livro legal. Vende no bar do qual eu fiquei sócia na quarta feira. O autor também está lá às vezes, assinando cópias e xingando o Sérgio, que coloca Renaissance e outras coisinhas incríveis na vitrola. Lançamento de Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck, na Siciliano do Shopping Iguatemi, sete da noite de hoje. Um dos melhores livros da minha infância : "Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts. Não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensa luz do Amarelo, nem a paz que tem o azul. Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts (...)" É do Ziraldo. Falafel e Prosseco com Marisa. Nos conhecemos faz dez anos. Eu conheço alguém há dez anos. A gente era amiga de colégio, e queria fazer uma revista chamada Luzes Imagéticas. E nós tínhamos um professor de redação chamado Agnelo. A gente era apaixonada por ele, claro. E nós gostávamos de Joy Division. Mas gostávamos de outras coisas estapafúrdias, tipo Debbie Gybson. A gente fazia pose de adulta, se vestia de preto, mas no fundo, a gente era teeny boper, como todo mundo. E eu tenho uma foto da Marisa com uma pantufa de monstro. A gente sempre dormia uma na casa da outra. E trocava cartas muito intensas, mesmo morando na mesma cidade. Ela casou. Mas quando o marido dela vai viajar, a gente se encontra e faz reedições de adolescência. Quinta feira é dia de trabalhar em casa. Acordei tarde sem culpa depois de uma noite divertida, fui fazer café, e vou começar de novo. Ouvindo Edu Lobo e pensando em todas as viagens que eu já fiz, as certas e as erradas, mais bonitas ou mais tristes, viagens que eu lembrei ontem para contar pra alguém que não me conhecia. Faz dois anos eu estou tentando escrever sobre viagens. E agora estou conseguindo. Por que viajante tem que ter mala pequena e um pouco de coragem. Por exemplo: se eu não tivesse saído de casa ontem, se eu não tivesse gritado pra Adéle, se eu não tivesse ligado, falado, parado, tomado um ônibus em direção a Canudos, se eu não tivesse ido a Paris mesmo morta de medo. Se eu tivesse ficado quieta, calma, surda, paralítica, eu teria vivido tão pouco... Eu tenho pressa. Eu sempre tenho pressa. Major Tom respondeu mais tarde. Cerveja boa. Muito boa. Boa noite. Eu não vou mais prestar jornalismo, ha ha ha. Um jazz insistente e pegajoso. Doce demais. Arranha. Como um bebê que não nasce nunca. Sinto saudades e não sinto. Voltei sozinha. Ninguém mais. Sala vazia. Frio, é claro que está frio. Mas não importa. Este é só o primeiro exercício. Sapato novo. Retomada. Boas comidas. Quando eu não estava aqui eu não existi direito, não sobrava muita coisa, nem a lonjura que eu não podia saber, falta de telefone, falta de carta, endereços errados, pratos sujos que não eram meus. Já faz uns meses, eu me concentrava tanto em não ser. Em não Ter. Eu gosto muito de raiz para agüentar o precário. Sujo e sem perfume. Flor nenhuma. Mesmo assim, eu não cometi um assassinato. Major Tom também estava ocupado e não respondeu. Então passei as últimas três horas escrevendo. Escrever é como parir. Só que dura mais tempo. Dói tudo. Ombros, pescoço, consciência e estômago. Mas é a coisa que eu mais gosto de fazer na vida. Faz três dias que eu não saio de casa a não ser pra trabalhar. Eu quero eventos, eu quero cerveja, eu quero conversar com pessoas (no meu trabalho eu não converso, eu ouço monólogos). E está todo mundo ocupado. Ground control to major Tom, HELP!!! What Fassbinder film is it? The one-armed Man walks into a flower shop and says: Days go by And they just keep going by endlessly Pulling you Into the the future. Days go by Endlessly Endlessly pulling you Into the future And the florist says: White Lily. (laurie anderson) Troquei a academia por um computador novo, uma cama nova, uma escrivaninha, internet rápida e a assinatura de um jornal. Se eu for sofrer vai ser correndo no canteiro da Sumaré ouvindo Pixies (Wave of mutilation é a música perfeita para essas situações.) Eu tive coragem. Eu sou uma pessoa mais feliz. Foda-se a ergométrica. E a poplist virou a Caros Amigos. Hoje eu fiz coisas incríveis, coisas que eu não faria há algum tempo. Fui pagar uma conta no banco, e em vez de voltar para casa, objetiva, flanei pela teodoro. Entrei numa loja de tintas, falei com o moço, peguei o catálogo, fiquei conversando. Não fui estritamente profissional. Depois eu estava no carro, à noite, voltando para casa, e vi a Adéle atravessando a rua. Em vez de deixar ela passar, eu chamei. Ela veio, me deu um abraço, saiu correndo por que estava atrasada. Eu fui na maternidade quando o filho dela nasceu. Eu fiz o bolão de chocolate com cobertura colorida do primeiro aniversário do moleque. Eu era a namorada de um amigo dela e não sou mais. A gente perdeu o contato escasso que tinha, mas eu gosto muito dela. Hoje a gente se encontra só em outros aniversários. Então foi bom ter gritado, chamado, abraçado. Eu nunca mais vou deixar a vida passar. Nunca. As fotos de Salvador chegaram. Saiu UMA boa. E é de uma escada. Preciso tentar mais. Em resposta ao gim tones: Eu detestava os dedos dos pés dele. Eram gordos. Amarelados. E as unhas saíam de dentro da carne muito pequenas, apontando para fora. Mas eu gostava do resto dele. Não sei se ele percebeu direito. Foram anos de tentativas. Ontem eu encontrei ele num bar, tomando gim tônica sozinho. Me olhou de lado como se estivesse com saudades, mas eu sei que não estava. E não tinha importância. Me deu um beijo no rosto e deve ter sentido a falta dos quadradinhos de metal dos meus dentes. Eu morria de medo da gente se machucar por causa daquele aparelho, aquela hecatombe no meio da minha beleza. A gente se machucou com outras coisas. Mais simples. Mais duras. Ele gostava de gim. Eu gostava de vodka. Era quase a mesma coisa, quase o mesmo gosto. Até quando não foi. Sinto falta, nunca quebra. Ele tirava as fotografias mais nojentas do mundo. E eu gostava de ver. Ele não sabia cozinhar e me alimentava com pão e manteiga. Eu nunca quis comer outra coisa. Ele ouvia Bob Dylan e me fazia chorar. Mas isso nunca foi difícil: câncer, ascendente em peixes. Horóscopo é uma bobagem. Apesar dos nossos mapas que quando superpostos formavam uma estrela perfeita. A perfeição é flácida. Ele estava sozinho. Eu estava sozinha. Ele lembrou de umas histórias, eu ri. Eu sempre rio, jogo o cabelo pra trás, sou coquete. Ele não percebeu a urgência da fuga. Não foi um encontro. E a boca dele foi se afastando na distância e eu queria, queria mas não ia confessar nunca. Eu ainda espero os homens abrirem as portas dos carros. Eu ainda espero flores brancas de Domingo. Eu nasci para esperar. Enquanto isso, na mesa ao lado, a vida ia continuar. Dei adeus. Adeus, Adeus, Adeus. Não tinha telefone que salvasse a gente. E salvação não existe. O dia de hoje: café da manhã de absoluto terror, eu não queria me mexer. Mas o dia foi melhor do que o esperado. Trabalhei horas, entre histórias da vida alheia e aulas de inglês. Encontrei coleguinha-de-faculdade-que-me-salvou-da-solidão-da-minha-sala. Cansei do falatório, voltei pra casa, liguei a TV pela primeira vez em seis dias. Estava passando Subway. Jantei. Desliguei a TV. Jurei não beber nada, tomei quatro cervejas. Sozinha. Esperando o sono vir ou alguma coisa maravilhosa resolver a minha vida. Fiquei com tesão. Depois desfiquei. E agora estou aqui. Há quatro horas. Trilha sonora: Songs: Ohia. É raiva o que gira o mundo. E eu não me farto de sentir raiva do homem que eu digo que amo. Talvez ame. Às vezes, não sempre. Estou cansada de ser triste e errada, e eu vou dizer o que eu não devia: se eu pudesse, eu voltava o tempo e fazia tudo diferente. Não teria mandado Herberto embora. Tentava ser mais como ele, e me divertia. Pararia de reclamar. Pararia de dizer oh mas ele não me entende psicologicamente, não compreende os meus mergulhos existenciais e sentidas tristezas. Ao caralho com as tristezas irresolvíveis do meu romântico coração. Talvez agora eu tenha que fazer tudo diferente com este homem que está ao meu lado e que não tem a mínima idéia de como se divertir, só sabe brincar de puto incestuoso psicanalítico. Ou fica gordo de chinelos, comendo chocolates pelos cantos. Ele é o pai perfeito. Sorte minha lembrar de vez em quando que eu não quero ter um filho. Eu não queria fazer tudo diferente com ele. Eu queria que o tempo voltasse e eu soubesse o que fazer. Fiquei amarga sem cura, vai ter sempre esta sombrinha pairando na minha vida. Herberto, que falta você me faz, você que não existe mais, não dorme nem acorda suando ao meu lado, não ronca, não fica intelectual crispando as sobrancelhas. De você eu sinto falta, você que alçava os desenhos animados ao nível de alta cultura. Foda-se a alta cultura, eu gosto mesmo é de pop japonês e as coisas que eu estudei para entender o ser humano e sua mente complicada só me servem para acalentar esse nojo discreto que eu sinto de gente que se justifica dentro da própria humanidade. Eu odeio as saias retas, as caras prontas, a minha dureza ao ouvir os problemas dos fodidos que me entram porta adentro a dizer oh como eu estou deprimido. São fodidos. Estão deprimidos. Eu ouço. Eu não sei fazer outra coisa para ajudar e não sei se isso muito ajuda. Tenho vontade de mandá-los para a praia, de comprar sorvete para eles, tenho vontade da verdade e a minha vida é toda cheia de dissimulação. Eu sinto falta do teu pragmatismo que beirava a tacanhisse, Herberto. Mas então eu me lembro que você era vaidoso e falava mais que a boca, e eu tinha que gritar para você me ouvir. É nessa hora que desisto de te querer de volta. Mesmo se eu quisesse. Eu quero, mas não quero. Vai ser sempre esta falácia. Ou eu vou me apaixonar direito pelo teu ex-melhor-amigo, que é o que tinha mesmo que acontecer, só ele não enxerga. Esta linda idéia me arrepia, se ele beijar outra mulher eu sou capaz de assassinato. Você já beija, e eu desisti de te matar. Ele não percebe. Não , eu é que sou burra. Ele percebe tudo e eu saio de lado, toda ambígua. Desisti do outro, vou ficar com esse. Será que eu agora amo? Tudo o que eu já achei que era amor acabou patético. Apart from lack of money. "Air and light and time and space "- you know, I've either had a family, a job, something has always been in the way but now I've sold my house, I've found this place, a large studio, you should see the space and the light for the first time in my life I'm going to have a place and the time to create" no baby, if you're going to create you're going to create whether you work 16 hours a day in a coal mine or you're going to create in a small room with 3 children while you're on welfare, you're going to create with part of your mind and your body blown away, you're going to create blind crippled demented, you're going to create with a cat crawling up your back while the whole city trembles in earthquake, bombardment, flood and fire. baby, air and light and time and space have nothing to do with it and don't create anything except maybe a longer life to find new excuses for." Charles Bukowski. Este é para a Clarah Averbuck, que me fez lembrar. Noite salva, chá, salada de pepinos e lembranças dos dias em que a gente ainda estava na escola. Hoje eu queria não ter que me mexer, com este sol aí fora, está duro, meu deus. Minha profissão é esperar e ouvir. E isso não é metáfora nem poesia. Eu tenho um estômago de novo, eu sei por que ele dói, e voltei a fazer uma coisa que eu precisava tanto. Estou escrevendo umas histórias. Daí não consigo comer. Não ouvi uma música sequer. Não consigo rir e marcar campeonatos de master e ser levinha. Mas preciso. Faz passar a aflição. Depois eu volto a fazer listas. Não vou Chorar. Não vou Chorar. Não vou Chorar. Só estou cansada. É só o Tom Waits. Nestes fins de domingo é que a gente percebe que é mortal e tenrinho. Estou com angústia. "Agora que anoiteço, de todo fim quero fazer começo", de quem é isso mesmo? E minha televisão não funciona. Ás vezes eu fico chata. Ás vezes não. Eu quero a caixa da Nara. Tem uma música dela que me faz chorar sem piedade. E eu nem sei o nome, mas tem a frase: " Por que desceste ao meu porão sombrio, quando eu estava bem morta de sono?" A viagem acaba aqui. E sempre era de noite e eu estava na sala cheia de gentes de antes que ficavam o tempo todo virando gentes de agora e me fazendo feliz por isso. Não sei que felicidade torta é essa exatamente, mas faz tempo eu desisti. Não é mais o que eu queria, é o que eu tenho e que pode ser bom. Não é mais o futuro esperado que não me deram, não é mais o plano tão bem feito que ruiu. Eu não tenho futuro. Ninguém me dá nada. Eu acordo mal entrada no meu corpo e vou e volto e sinto gostos e é de um presente atroz a única coisa que eu sei sentir para não sentir desespero. Por que quando eu sinto a dor que me fez pôr um cobertor na boca, gritar, tirar a roupa e escrever milhões de cartas sentidas, quando eu fico assim, eu não tenho corpo. Eu tenho possibilidades que não se cumpriram. Se eu tivesse outra casa. Se eu tivesse o teu filho. Se eu fosse mais nova, mais magra, mais trêmula , mais bela, sem pernas quebradas, sem cabelos errados, sem grandes naufrágios. Se eu tivesse um cavalo. Eu ia embora virar zorro e ser herói e não doer nunca mais. Eu não tenho um cavalo. Eu tenho devagar a possibilidade do presente. E vou tecendo. De marias chiquinhas. Tentando. Bebendo. Dançando. Comprando livros de culinária mas nunca nenhuma comida, ouvindo os meus discos empoeirados de medo que ficaram guardados por todo o ano passado, voltando, voltando. Tão distante daquele trem apertado no escuro de uma cidade que tinha o nome do cão de guarda das portas do inferno: Cérbére. O trem que me fez sentir a precisão triste do fim de alguma coisa antes mesmo de acontecer, um trem que me fez sufocar cheia de holocaustos. E os campos de concentração posteriores apagando as alegrias do que era tão bonito e não durou. Cheguei na estação, desci, olhei em volta. O estômago doeu ainda. Por puro hábito. Eu tomei fôlego. O ar não era mais tão mofado, eu sequer engasguei. Os sapatos eram os mesmos por que finalmente podiam ser, sem muita dureza entre os silêncios das nossas palavras. A estação é sempre mais uma e existem outros trens, acolchoados e confortáveis, ou rascantes até. A viagem não acaba aqui. É só um novo platô. |